Orçamento familiar importa!

Há alguns anos, uma campanha publicitária foi duramente criticada por oferecer a mulheres uma promoção de sapatos durante uma partida de futebol. A militância revoltou-se pois não queria atrelada a essas uma futilidade como o desejo por calçados novos. Em resposta, reclamava um interesse igual pelo esporte. Ignorava, claro, que o futebol é uma futilidade ainda maior, pois nem para proteger os pés serve.

Este é um exemplo do que chamo de machismo do feminismo, que é o ato de tomar por inferiores os papéis que historicamente pertenceram a mulheres – ou ainda pertencem, mesmo que não precisem de exclusividade – e, em vez de enaltecê-los, renegá-los a qualquer custo.

Só hoje fiquei sabendo que Michel Temer disse ontem que “ninguém mais é capaz de indicar os desajustes de preços no supermercado do que a mulher“. Foi a forma que o presidente da República encontrou para dizer que nenhum brasileiro percebe melhor as crises econômicas do que as mulheres, uma vez que são elas quem majoritariamente cuidam dos orçamentos familiares.

Há várias explicações. Mas pesco duas, que nascem justamente de situações que as beneficiam: na imensa maioria dos divórcios, a mulher ganha a guarda dos filhos e passa a cuidar sozinha da gestão da casa em que vivem; e homens vivem em média uma década a menos, deixando às viúvas o controle exclusivo de tudo o que a família produziu até ali.

Nos Estados Unidos, isso já rende um efeito político de proporções federais: algumas das principais fortunas do país estão sob os cuidados de matriarcas, que escolhem a dedo os políticos que financiarão nas disputas eleitorais. Não à toa, questões de interesses das mulheres ganham cada vez mais espaço nas campanhas, mesmo as presidenciais.

Mas não precisa ser algo tão amplo. Se você encara o mundo como um organismo social, as nações são os seus órgãos, e as famílias, suas células. Esse reconhecimento não é meramente metafórico, é jurídico, ainda que caiba discussões ou mesmo ajustes no que se entenda por família. Mas fato é que o orçamento familiar é o primeiro orçamento da sociedade. É o prioritário na vida de qualquer cidadão. Por uma jogo de empurra da lógica de mercado, é dele que saem todos os impostos que mantêm um país de pé.

Ter o controle do orçamento familiar não é nenhum demérito, muito pelo contrário. Eu, que não sou pai, estou há meses sem conseguir sair do cheque especial. E vivo a invejar a minha mãe, que educou cinco filhos e ainda guardou reservas para garantir-nos alguns bens apenas com a pensão que recebia desde que o marido morreu.

Minha mãe é uma heroína. Eu aplaudo de pé o que ela conseguiu fazer. Principalmente porque estou há uma década falhando miseravelmente no controle financeiro do meu lar. Entretanto, sei que ela não é a única. Ela faz parte de toda uma massa que não se enxerga na implicância da militância que se ofendeu com as palavras de Temer.

Por mim, Temer se explodia e os estilhaços levariam juntos 98% do Congresso Nacional. Mas o orçamento familiar precisa ser respeitado, principalmente dos arroubos de uma militância histérica que já deixou a razão de lado há tempos.

Enfim… Orçamento familiar importa. E a chance de sua mãe entender disso melhor do que você é enorme.

Herman Benjamin não perguntou?!

Eu lembro de ficar incomodado na campanha com a atuação de Herman Benjamin. O martelo dele até decidia contra a campanha de Dilma, mas parecia muito mais empenhado em podar as de Marina e Aécio — principalmente deste último.

Contudo, quando recentemente iniciou a apuração que pode render a cassação da chapa que reelegeu a petista, fiquei na dúvida: ele queria, por Dilma, vingar-se de Temer, ou apenas fazia o trabalho dele? E tendi à segunda opção, afinal, cassar a chapa era também cassar, desconfiava eu, a protegida do membro do TSE.

Agora, leio na Folha que Benjamin “dá sinais” de que concordará com a tese de que Dilma não merece ficar inelegível pois, apesar de todos os depoimentos dados, ela não teria ciência de nada.

Talvez tenha faltado a Benjamin fazer a Marcelo Odebrecht a pergunta curta e incômoda: ela sabia? Se tivesse feito, ouviria do empreiteiro o que já foi capa da IstoÉ: sim, não só sabia, como deu aval. Chegou a confirmar pessoalmente ao delator que uma nova carga de R$ 12 milhões precisaria irrigar o caixa dois. E que metade daquele volume iria para o PMDB. Tudo isso referendando o que já havia pedido o tesoureiro de campanha. Ou seja… Ela estava ciente dos movimentos deste.

Com isso, voltei a ter motivos para desconfiar da postura do ministro nomeado por Lula ao STJ em 2006, quando o ex-presidente, instruído por Marcio Thomaz Bastos, já escolhia para a Justiça currículos que pudessem ser úteis no julgamento do Mensalão.

Os nomes na MP

Marcelo Odebrecht confessou ao TSE que um terço dos R$ 150 milhões doados à campanha de Dilma em 2014 foram entregues em contrapartida a Medida Provisória de 2009 que beneficiou uma empresa do grupo. Em palavras mais simples, a empreiteira teria comprado com R$ 50 milhões uma MP do governo Lula.

As palavras de Marcelo Odebrecht fazem referência à Lei 11.941, de 27 de maio de 2009.

Ao rolar a página até o final, é possível conferir os nomes que assinam o documento:

  • LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
  • Tarso Genro
  • Guido Mantega
  • Reinhold Stephanes
  • José Antonio Dias Toffoli

Atualização 11h07

Com conteúdo do Estadão, o Zero Hora noticiou que a MP negociada pela Odebrecht com o governo Lula seria a “medida provisória do REFIS“. REFIS é o tema central da lei 11.941 citada mais acima, mas o Antagonista deixa claro que a MP citada por Marcelo é a 470, de 13 de outubro de 2009, semanas após Lula indicar Dias Toffoli ao STF – o mandato deste começaria apenas dez dias depois.

Na assinatura da referida MP, constam apenas os nomes de Lula e Guido Mantega.

Temer com 78% de rejeição

Em qual instituto confiar? Eu tenho motivos em suficiência para desconfiar de Datafolha, Ibope e Paraná. Dos que restam, o Ipsos me soa dos mais sóbrios. E, pela pesquisa dele, Michel Temer está com 78% de rejeição.

O presidente só não supera Eduardo Cunha (89%) e Renan Calheiros (82%), mas já deixou Dilma Rousseff para trás, que bateu em 74% no seu pior momento.

O dado também entrega quão perdida está a esquerda. Deveriam todos estarem fazendo faixas com o número para pularem carnaval. Mas simplesmente passou batido.

O Brasil está sem oposição. De novo.

Só me ocorrem dois momentos em que isso aconteceu: ditadura militar, e quando o PT comandou o país por 13 anos.

Em ambos os casos, deu muito errado.

O que quer o governo Temer

Resumidamente, evitar a cadeia. Mas, com popularidade tão baixa, só terá forças para tanto até o primeiro dia de janeiro de 2019, pois fatalmente passará o cargo a um opositor.

Então é esse o plano dele?

A mensagem de hoje, defendendo que a recessão está no fim, mesmo que ela ainda pese bastante no nosso lombo, pode ter entregado a estratégia. Seria uma espécie de fuga pela economia.

Faria sentido. A história ensina que, com muito dinheiro no bolso, o brasileiro topa de ditadura militar a petismo destruindo democracia e estrutura pública. E, até aqui, a equipe econômica vem fazendo um trabalho exemplar.

Se tais resultados chegam, Temer emplaca um sucessor, ou, quem sabe, até renova o mandato. E aí quem perde é a Lava Jato, que verá o parlamento, em conluio com o Supremo, inutilizar o que ainda resta de arma para se fazer Justiça no país.

E eu creio que os resultados virão.

Ou seja… Dallagnol, Moro e sua trupe precisam enfiar o pé no acelerador. A “janela de transferência” de Brasília para Curitiba aos poucos se fecha.

Placar da Cassação

O Antagonista lembra que Michel Temer indicará dois ministros ao TSE ainda este semestre. Certamente escolherá nomes somente após certificar-se de que não votarão pela cassação do próprio mandato. Como as chances de Gilmar Mendes votar algo que desagrade o atual governo são mínimas, o presidente já teria 3 dos 4 votos necessários para se safar.

Rosa Weber foi voto vencido contra Renan Calheiros. Votar contra Calheiros era votar contra Temer. Creio que votaria novamente sem problema. E Herman Benjamin parece bem empenhado em passar a limpo essa história.

Placar até o momento:
Governo 3 x 2 Cassação

Falta Fux, que costumo tomar por independente, e Napoleão Maia, que desconheço.

Meu chute: Napoleão vai de cassação, Fux vai de Temer. O mandato será concluído somente em 1º de janeiro de 2019.

A conferir.

Alguém precisa avisar à esquerda que ela é a oposição

Era maio de 2015 quando Edson Fachin enfrentou a sabatina no Senado. Sairia de lá apenas 12 horas depois, após ir às lágrimas algumas vezes tamanha a pressão. O vídeo em que pedia votos a Dilma Rousseff causou bastante impacto junto à opinião pública. O senador que o defendeu no relatório foi massacrado nas redes sociais pelos próprios eleitores. No Twitter, não teve outro assunto. Seria referendado, mas quero crer que toda aquela provação serviu para que o ministro tivesse no STF uma das melhores atuações nesses quase dois anos.

Michel Temer indicou Alexandre de Moares para a vaga aberta com a morte de Teori Zavascki. Por ser um nome com um passado de serviços ao PSDB, imaginei que viveria canseira semelhante à de Fachin. Afinal, a esquerda na oposição sempre foi uma oposição de verdade. Nisso eu mesmo acreditava. Mas…

Mas são 18h e as redes sociais buscam algum assunto. Os esquerdistas que ainda sigo parecem desinteressados no tema. No início, alguns fizeram comentários, mas logo jogaram a toalha, foram cuidar da própria vida.

Do nosso lado, por mais que incomode uma nomeação tão desalinhada com o que se espera da Suprema Corte, ao menos há a sensação de que o plenário do STF ficará menos desequilibrado: sai um indicado do PT, entra um indicado do PSDB.

Sim, há alguma resistência em apoiar o governo Temer, mas a direita é a situação. Cabe à esquerda se tocar que, hoje, a oposição é ela. E se portar como tal.

Só isso?

No momento da redação de texto, leio na coluna de notícias que está começando a sabatina de Alexandre de Moares, um personagem que, imaginei, seria um prato cheio para uma imprensa ávida por implodir o governo Temer. Mas, salvo alguma surpresa preparada pelos senadores, nada do que foi apresentado até o momento deve tornar difícil a missão de referendar a escolha do presidente.

O que, claro, é uma pena. Mudam as estações, o STF não muda.

O inimigo é outro

Por quatro anos, Dilma mandou, o Congresso obedeceu. Se necessário fosse, Henrique Alves e Renan Calheiros levavam as votações até o nascer do sol para entregarem o que o Palácio do Planalto queria.

Mas tinha um Eduardo Cunha no meio do caminho. E Dilma foi por demais ingênua ao dar ouvidos a Mercadante entregando o presidente da Câmara (e do Senado) aos leões. Resultado: perdeu o Congresso, a governabilidade, e caiu.

Com Temer, contudo, há uma enorme diferença: o Congresso exige, Temer cumpre — ou tenta cumprir, mas vez em quando recua.

E o que o Congresso pede é tão ou mais feio do que o que Dilma exigia.

O inimigo agora é o parlamento. E derrubar o presidente servirá apenas para dar ainda mais poderes a esse adversário.

Eu cheguei a defender uma nova queda. Mas porque via, ali em novembro, uma janela para, em fevereiro, a opinião pública emplacar um presidente da Câmara e do Senado mais compromissado, bem… Com o bom senso.

Mas ninguém deu a mínima. Nem opinião pública, nem imprensa, nem oposição. Pareciam todos mais interessados no que estava acontecendo nos Estados Unidos.

Para o momento, não vejo outra alternativa: dois anos de severa vigilância e um trabalho sério de renovação em 2018.

Se parece impossível que consigamos construir algo positivo até lá, que ao menos evitemos que destruam o pouco que nos resta.