Herman Benjamin não perguntou?!

Eu lembro de ficar incomodado na campanha com a atuação de Herman Benjamin. O martelo dele até decidia contra a campanha de Dilma, mas parecia muito mais empenhado em podar as de Marina e Aécio — principalmente deste último.

Contudo, quando recentemente iniciou a apuração que pode render a cassação da chapa que reelegeu a petista, fiquei na dúvida: ele queria, por Dilma, vingar-se de Temer, ou apenas fazia o trabalho dele? E tendi à segunda opção, afinal, cassar a chapa era também cassar, desconfiava eu, a protegida do membro do TSE.

Agora, leio na Folha que Benjamin “dá sinais” de que concordará com a tese de que Dilma não merece ficar inelegível pois, apesar de todos os depoimentos dados, ela não teria ciência de nada.

Talvez tenha faltado a Benjamin fazer a Marcelo Odebrecht a pergunta curta e incômoda: ela sabia? Se tivesse feito, ouviria do empreiteiro o que já foi capa da IstoÉ: sim, não só sabia, como deu aval. Chegou a confirmar pessoalmente ao delator que uma nova carga de R$ 12 milhões precisaria irrigar o caixa dois. E que metade daquele volume iria para o PMDB. Tudo isso referendando o que já havia pedido o tesoureiro de campanha. Ou seja… Ela estava ciente dos movimentos deste.

Com isso, voltei a ter motivos para desconfiar da postura do ministro nomeado por Lula ao STJ em 2006, quando o ex-presidente, instruído por Marcio Thomaz Bastos, já escolhia para a Justiça currículos que pudessem ser úteis no julgamento do Mensalão.

Os nomes na MP

Marcelo Odebrecht confessou ao TSE que um terço dos R$ 150 milhões doados à campanha de Dilma em 2014 foram entregues em contrapartida a Medida Provisória de 2009 que beneficiou uma empresa do grupo. Em palavras mais simples, a empreiteira teria comprado com R$ 50 milhões uma MP do governo Lula.

As palavras de Marcelo Odebrecht fazem referência à Lei 11.941, de 27 de maio de 2009.

Ao rolar a página até o final, é possível conferir os nomes que assinam o documento:

  • LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
  • Tarso Genro
  • Guido Mantega
  • Reinhold Stephanes
  • José Antonio Dias Toffoli

Atualização 11h07

Com conteúdo do Estadão, o Zero Hora noticiou que a MP negociada pela Odebrecht com o governo Lula seria a “medida provisória do REFIS“. REFIS é o tema central da lei 11.941 citada mais acima, mas o Antagonista deixa claro que a MP citada por Marcelo é a 470, de 13 de outubro de 2009, semanas após Lula indicar Dias Toffoli ao STF – o mandato deste começaria apenas dez dias depois.

Na assinatura da referida MP, constam apenas os nomes de Lula e Guido Mantega.

Contabilidade criativa sueca

Esse imbróglio todo com a Suécia está com cheiro enorme de algo que o brasileiro conheceu bem com o PT: contabilidade criativa. Para evitar notícias negativas, o governo Dilma Rousseff manipulava todos os índices possíveis, ao ponto de adiantar em três anos a revisão do cálculo do PIB, ou o Brasil correria o risco de viver agora em 2017 o quarto ano seguido de recessão.

Barack Obama usou de expediente semelhante ao passar a contabilizar como deportados os imigrantes que nem chegavam a entrar nos Estados Unidos. Com isso, agradava o eleitor que exigia dele alguma atitude. Mas a mentira não colou muito.

Quanto à Suécia, bem… A enrolação da entrevista abaixo dá o tom (em inglês):

O inimigo é outro

Por quatro anos, Dilma mandou, o Congresso obedeceu. Se necessário fosse, Henrique Alves e Renan Calheiros levavam as votações até o nascer do sol para entregarem o que o Palácio do Planalto queria.

Mas tinha um Eduardo Cunha no meio do caminho. E Dilma foi por demais ingênua ao dar ouvidos a Mercadante entregando o presidente da Câmara (e do Senado) aos leões. Resultado: perdeu o Congresso, a governabilidade, e caiu.

Com Temer, contudo, há uma enorme diferença: o Congresso exige, Temer cumpre — ou tenta cumprir, mas vez em quando recua.

E o que o Congresso pede é tão ou mais feio do que o que Dilma exigia.

O inimigo agora é o parlamento. E derrubar o presidente servirá apenas para dar ainda mais poderes a esse adversário.

Eu cheguei a defender uma nova queda. Mas porque via, ali em novembro, uma janela para, em fevereiro, a opinião pública emplacar um presidente da Câmara e do Senado mais compromissado, bem… Com o bom senso.

Mas ninguém deu a mínima. Nem opinião pública, nem imprensa, nem oposição. Pareciam todos mais interessados no que estava acontecendo nos Estados Unidos.

Para o momento, não vejo outra alternativa: dois anos de severa vigilância e um trabalho sério de renovação em 2018.

Se parece impossível que consigamos construir algo positivo até lá, que ao menos evitemos que destruam o pouco que nos resta.