“Pronto: sabotei o PT. Agora só falta o PSDB sabotar o PSDB.”

Encontrei as palavras do título na linha final de uma ótima coluna de Diogo Mainardi republicada pelo blog de Reinaldo Azevedo em 31 de outubro de 2009. O ainda colunista da Veja alegava ter ouvido dos marketeiros de Serra e Aécio que somente uma chapa presidencial com ambos seria capaz de “sabotar” os planos do PT, que já trabalhava o nome de Dilma para a sucessão de Lula.

O cálculo envolvia uma vitória dupla: São Paulo e Minas Gerais. E isso só seria possível com os principais nomes de cada Estado concorrendo em parceria. Do contrário, o PT venceria em Minas.

Eu não sou marketeiro, mas sei que o PSDB só logrará o êxito que almeja se unir seus dois maiores trunfos em 2018. Para isso, a estratégia parece-me simples: José Serra mantém o governo de São Paulo com o próprio partido (a vitória mais previsível de todas); Aécio Neves renova o mandato para o Senado já mirando a presidência da casa, e isso tem que acontecer com a reconquista de Minas (talvez Anastasia seja outra aposta de baixo risco); se for esperto, emplaca um “outsider” amigo no governo do Rio de Janeiro, estado onde morou nos últimos anos, hoje uma terra arrasada com tantos ex-governadores enfrentando graves problemas com a Justiça.

Tudo isso para que Geraldo Alckmin seja o próximo presidente da República. É o nome que “venceu” a eleição de 2016, é o dono de uma estratégia que funcionou e está funcionando em São Paulo, e está com uma sede enorme de fazer isso no resto do país.

Não é nada de outro mundo. É o que qualquer partido sério faria: avaliaria seus melhores quadros e reservaria aos maiores as maiores conquistas.

Mas o PSDB sempre sabota o PSDB. E diariamente surgem notinhas defendendo uma candidatura presidencial de João Doria, alguém com dois meses de trabalho como prefeito.

Essas notas não querem Doria na Presidência. Querem um conflito entre ele e seu padrinho, Alckmin. Creem que, implodindo a relação, implodem ambos, e abrem caminho para Serra ou Aécio, ou Serra e Aécio, uma dupla cuja rejeição Lula adoraria ver somada.

Naquele 31 de outubro de 2009, Mainardi terminou a coluna dizendo: “Agora só falta o PSDB sabotar o PSDB“. No dia seguinte, primeiro de novembro de 2009, às 12h09, Juca Kfouri noticiou que Aécio Neves bateu na “acompanhante” numa festa no Rio de Janeiro.

Eu sou o tipo de pessoa que tem muita dificuldade para acreditar em coincidências. Mas, coincidência ou não, no ano seguinte, o vice de José Serra foi Índio da Costa. E Aécio teve que dar muita explicação sobre o episódio do Fasano em 2014.

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A “vitória” da direita em 2016 iniciou uma corrida à… esquerda?!

Nas eleições municipais de 2016, a direita teve o melhor resultado em décadas. E o PT, principal nome da esquerda, foi reduzido a décimo partido da República.

Iniciou-se ali uma fuga pela direita, certo?

Não. Iniciou-se ali uma briga pela nova liderança da esquerda.

Ciro Gomes quer que a nova esquerda seja o PDT.

Marcelo Freixo está certo de que a nova esquerda é o PSOL.

Geraldo Alckmin está pronto para mudar para o PSB caso o PSDB vire-lhe as costas.

FHC se engraçou defendendo Jean Wyllys e até foto ao lado de Duvivier fez, achando que o PSDB ocupará este posto.

Aécio Neves está lá concordando com a Folha de que isso de “fake news” é muito prejudicial.

Cristovam Buarque diz que será candidato a presidente de novo. Pela imprensa, o herdeiro do voto esquerdista seria Fernando Haddad.

Lula jura que está no páreo, apesar de todos sabermos que só busca um discurso para evitar a prisão. Até Dilma estaria sendo cogitado para o governo do RS.

Há ainda Eduardo Jorge no PV. E Marina Silva liderando qualquer segundo turno.

Só João Doria faz alguma graça com a direita, mas todos sabem que ele é Alckmin e rumaria junto para o PSB em dois tempos.

Sobrou o que na direita? Onyx Lorenzoni, que possivelmente você nem sabe quem é, Ronaldo Caiado, cada vez mais calado, e Jair Bolsonaro, que já começou a ser bombardeado e há muita munição contra ele.

Cabe lembrar também que Eduardo Cunha, em um ano, desceu de presidenciável a presidiário. E Feliciano, que tentou peitar a UNE, foi acusado de estupro e se escondeu dos holofotes.

A direita não é amadora. É assustadoramente amadora.

O que quer o governo Temer

Resumidamente, evitar a cadeia. Mas, com popularidade tão baixa, só terá forças para tanto até o primeiro dia de janeiro de 2019, pois fatalmente passará o cargo a um opositor.

Então é esse o plano dele?

A mensagem de hoje, defendendo que a recessão está no fim, mesmo que ela ainda pese bastante no nosso lombo, pode ter entregado a estratégia. Seria uma espécie de fuga pela economia.

Faria sentido. A história ensina que, com muito dinheiro no bolso, o brasileiro topa de ditadura militar a petismo destruindo democracia e estrutura pública. E, até aqui, a equipe econômica vem fazendo um trabalho exemplar.

Se tais resultados chegam, Temer emplaca um sucessor, ou, quem sabe, até renova o mandato. E aí quem perde é a Lava Jato, que verá o parlamento, em conluio com o Supremo, inutilizar o que ainda resta de arma para se fazer Justiça no país.

E eu creio que os resultados virão.

Ou seja… Dallagnol, Moro e sua trupe precisam enfiar o pé no acelerador. A “janela de transferência” de Brasília para Curitiba aos poucos se fecha.

Trump, Doria, Bolsonaro

Algo que une o voto em Trump, Doria e Bolsonaro: a crença de que a vontade política importa mais do que o poder de articulação. Já elegeu os dois primeiros, está assuntando com o avanço do terceiro.

No segundo caso, vem dando resultado. No primeiro, até pela natureza federal do trabalho, ainda não. Mas algo é preciso ser dito sobre Doria: ele tem um padrinho, alguém que o articulou, o que de certa forma dá a tudo um ar de farsa, ao mesmo tempo que parece mostrar aí o segredo do sucesso.

Vontade política? Poder de articulação? Na dúvida, ambos.

Amadorismo

Muitos amigos temem as ideias de Bolsonaro. Até por concordar com parte delas, eu temo mais o amadorismo. Essa enquete de Flávio, um dos três “bolsokids”, é um segundo exemplo só em 2017. O outro foi a candidatura do patriarca à Presidência da Câmara. Em ambos os casos, levantaram bolas para os adversários cortarem. Pior: impuseram algum constrangimentos à própria militância, já que defenderam o voto em Jair, mas só conseguiram quatro lá, e foram surrados por Lula aqui.

O quarteto precisa ser mais esperto do que isso.

Tucanice?

O Instituto Paraná, aquele que, durante a campanha de 2014, adorava mostrar Aécio Neves muito à frente de Dilma Rousseff, surgiu com uma pesquisa que testa João Doria como candidato tucano à Presidência da República.

O prefeito de São Paulo aparece em quinto lugar, atrás de Lula e Marina Silva, o que não surpreende ninguém, Jair Bolsonaro, o que confirmaria a pesquisa CNT, e Joaquim Barbosa.

(Quem, em pleno 2017, ainda aposta numa candidatura de Joaquim Barbosa?)

Fica, no entanto, a sensação de que isso é roupa suja querendo uma lavagem fora de casa. A ideia de candidatura de Doria pode ser fatal para administração da capital, afinal, o prefeito conta com o apadrinhamento de Geraldo Alckmin, a quem interessa presidir o Brasil. Se essa aliança for aos ares, perdem ambos.

E, mais do que petista, há tucanos interessados nessa derrota.