Tora reia

Imagino que toda cidade, ou mesmo bairro, tenha um nome distinto para a brincadeira. Na minha escola, era assim que chamávamos. Quando me explicaram, confesso que acreditei se tratar de uma lenda. Até ouvir tão temido grito em meio a uma pelada no intervalo da aula.

O dispositivo pode ser sacado por qualquer cidadão no gozo de sua sanidade enquanto joga uma partida de futebol. Uma vez gritado de forma a ser ouvido por todos os competidores, a Constituição Federal de 1988 é revogada até que sobre o último homem em pé.

Se bem lembro, partiu de Romeu a convocação. No que gritou “tora reia”, Igor converteu-se em um karateca. E, com uma voadora cinematográfica, acertou as costas de Exdras, que, por infelicidade do destino, tinha a posse de bola no local e momento errado.

Se antes todos corriam na direção da pelota, agora todos corriam dela. Ao ponto de que sobrou sozinha ali, de frente para o gol, a alguns metros de onde eu me encontrava. Ingênuo, corri em sua direção. No que acreditei que seria eu a marcar o gol da vitória, o bico do tênis de Flávio deslocou para o lado o calcanhar do meu. Minhas pernas se enroscaram provocando um capotamento que só não se concluiu em distância maior por causa da colisão com a árvore próxima da piscina. Quando dei por mim, de branco, meu uniforme estava marrom de lama.

Em segundos, o campo de futebol se convertera em campo de refugiados. O cenário era de guerra. Corpos se espalhavam pelo chão. Muitos pediam ajuda, poucos podiam ajudar.

Não lembro quem venceu a partida. São memórias com mais de duas décadas. De uma Brasil ainda tricampeão.

Sei apenas que sobrevivi, ainda que não saiba como.


Eu estava satisfeito com o processo de impeachment de Dilma. Apesar de todos os trancos e barrancos, tínhamos chegado ao final respeitando o rito imposto pelo STF. Foi cansativo, mas jogamos limpo, dentro até das regras recém inventadas. Até que Renan Calheiros pediu a palavra. E, segurando a Constituição em suas mãos, disse que votaria para fatiar a punição à presidente já cassada, mantendo com ela direitos políticos que, estava claro, ela tinha que perder.

Era o “tora reia” em nível federal. Ali, deixou-se claro que a Constituição era só uma carta de intenções. Que, basta querer, pode-se ignorá-la.

Desde então, de tribunal dissimulado, o STF converteu-se numa corte explicitamente sonsa. Sem qualquer esforço em esconder que está ali para proteger os mais poderosos da sede de vingança dos menos.

Ainda que pacificamente, o Brasil vive hoje um regime de exceção. Há leis, mas elas só servem aos adversários de quem está no poder. Mais ainda, aos adversários da ideologia que segue no comando, ainda que sua principal encarnação tenha sido realocada para a oposição.

Espero que, ao final desse processo, todos sobrevivamos. Ainda que eu não faça ideia de como.

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Publicado por

apyus

Um cara simples

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