Twitter, para que te quis?

“Marlos” é fácil: minha mãe tirou de Marlos Nobre, maestro brasileiro que corria o mundo na época em que nasci. Mas de onde veio o “Ápyus”? De minha mãe, ouvi que havia saído da cota do meu pai, que sempre se responsabilizava pelo segundo nome dos filhos. O problema: ele já havia morrido quando me preocupei em saber.

Quando eu perguntava a motores de busca, eles me respondiam com a origem da palavra “larápio”. Que, como percebe-se, nada tem de nobre:

“Houve em Roma um pretor que dava sentenças favoráveis a quem melhor pagava. Chamava-se ele Lucius Antonius Rufus Appius. Sua rubrica era L.A.R. Appius. Daí chamar-lhe o povo larappius, nome que ficou sinônimo de gatuno.”

Meu pai batizou o filho homenageando um corrupto?! Anos depois, a mesma internet me garantiria: não, era uma lenda.

* * *

Meu pai morreu 47 dias antes de eu completar dez anos. Subtraído o período que minha memória não registrou, uma vez que era bastante novo, resta-me a sensação de que vivi com ele menos do que convivi com os companheiros de faculdade. Guardo ótimas lembranças de período tão curto. Contudo, tenho um depósito ao lado no qual acumulo todas as questões que naturalmente faria ele, mas seguirão eternamente sem resposta.

Soa tolo para muitos, mas foi com este pensamento que publiquei um primeiro blog pessoal há coisa de 15 anos. Nele, queria evitar que um futuro filho meu passasse pelo que passei. E tivesse um mínimo registro do que seu pai pensava antes de faltar.

Em 2008, li em outro blog que tinham inventado o “microblog”. A ideia me soava tenebrosa: reduzir os textos a 140 caracteres. Mas possuía um recurso que me interessava. Falo da possibilidade de atualizá-lo por intermédio de SMS, ainda que sem o recurso dos acentos. Isso me permitiria, por intermédio de um plugin, registrar algumas ideias que poderiam ser melhor desenvolvidas num segundo momento. E assim escrevi no Twitter entre abril e dezembro.

Com a virada do ano, por puro tédio, acessei a interface da ferramenta e percebi que havia um grupo de mais ou menos 50 amigos interagindo, ainda que sem resposta, comigo. E finalmente percebi que podia continuar lá a missão assumida no blog, que sairia do ar tempos depois.

No momento em que escrevo estas palavras, já possuo por volta de 11 mil seguidores. Nove anos depois, sinto que poucas brincadeiras mudaram tanto a minha vida. Ali, naquela loucura, já há o registro de ao menos um quarto desta vida. Estão lá os meus erros, os meus acertos, os meus risos, os meus chiliques, e, principalmente, a maior parte dos meus amigos mais próximos.

Já pensei inúmeras vezes em sair de lá. Pelo tanto que me consome tempo. E pelo tanto de estresse que tem gerado recentemente. Mas, de certa forma, sinto-me em débito com aquela missão inicial. Aquilo de conversar com um filho que nunca tive, nem faço planos de ter.

* * *

Há poucos anos, o telefone tocou, era um amigo. Sabia do meu “drama”. E contou-me empolgado. Estava na aula, o professor contava a origem da Via Ápia, uma das principais estrada da Roma antiga. Teria sido assim nomeada em homenagem ao homem que iniciou o projeto: Appius Claudius Caecus.

Tenho fé que veio daí.

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Publicado por

apyus

Um cara simples

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