Bates Motel promoveu um “encontro” entre Hitchcock e Lynch

Ao final de cada episódio, era desnecessariamente lembrado ao público que a história inspirava-se no clássico de Hitchcock. Mas Carlton Cuse em pessoa confessou que a produção deste prelúdio tinha Twin Peaks como musa, o que só somou pontos à investida.

Ausente no livro e no filme, o acréscimo de um irmão para Norman Bates parece ter vindo da história real de Ed Gein, o assassino que serviu de base para Robert Bloch lançar Psycho em 1959. Foi uma aposta bem sucedida, que rendeu o personagem mais carismático numa série repleta de concorrentes.

Com dez episódios de 40 minutos, o A&E parece ter encontrado a metragem ideal para maratonistas de streaming. Público e crítica concordaram que o trabalho só melhorou com o tempo, e Bates Motel concluiu-se no alge após cinco temporadas. Para mim, no entanto, nada supera a segunda, que assumiu a missão de  fazer com que o público compreendesse o que os dois personagens principais sentiam um pelo outro.

Com spoilers

Eu não lembro de outra produção pop mergulhar tão profundamente no complexo de Édipo. Ainda que tenha terceirizado o incesto a um personagem coadjuvante, o mérito do segundo ano foi o de justamente convencer o espectador de que Norma e Norman se amavam não como mãe e filho, mas como esposa e marido.

No entanto, onde público e crítica mais viram méritos, foi onde mais notei escolhas equivocadas. Marion Crane merecia ser interpretada por uma atriz, e não por Rihanna. A caracterização da personagem como negra, o fato de a vítima ter sido o amante dela, e todo o contexto criado para justificar as facadas desferidas por Norma/Norman na banheira soaram uma covarde rendição dos roteiristas ao politicamanete correto dos últimos anos. E a graça com a cena mais clássica do filme findou desrespeitando o legado de um dos diretores mais celebrados do cinema.

Curiosamente, nem filme, nem série tiveram coragem de mencionar o detalhe mais pesado do romance: a necrofilia incestuosa do personagem principal. Certamente teria resultado numa história ainda mais impactante. O que, claro, colocaria em risco cinco anos de trabalho. Mas Cuse, ainda escaldado pelo final de Lost, preferiu aqui entregar apenas o que o público queria ver. E quem há de recriminá-lo por isso?

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Publicado por

Marlos Ápyus

Um cara simples

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