O sistema é mau, mas minha turma é legal

Porque o calor não me deixava dormir, eu só pegava no sono com um ventilador ligado. Porque desde sempre sou uma vítima da rinite alérgica, o ventilador me fazia amanhecer com as vias aéreas em frangalhos. Mas dessa obviedade eu só me toquei aos 29 anos, quando me mudei para a frieza de São Paulo. Até então, passei toda uma vida escolar me escondendo da atenção alheia, afinal, não queria que os colegas de estudo me flagrassem manipulando muco na cadeira ao lado. Assim, mesmo na condição de bom aluno, escondia-me lá no fundo, onde teria a companhia exclusiva de outros introvertidos. Ou, como são mais conhecidos, “a turma do fundão”.

Era uma fauna diversificada. Tinha do playboy que acordava tarde com ressaca ao garoto da periferia que também chegava atrasado, mas por perder o ônibus. Um queria ser músico, outro queria ser jogador de futebol, mas a maioria ainda não sabia o que queria. Nem o CDF com facilidade acima da média para o aprendizado, muito menos o aluno repetente, que se comportava como uma hiena, rindo e fazendo graça de tudo.

Mas havia algumas características em comum. Em especial, a descrença no sistema, ou a sensação de que a maior parte do tempo dedicado a ele de nada seria útil em suas vidas – no que tinham plena razão.

De minha parte, apeguei-me a eles por um motivo simples: foi o primeiro – e talvez único – grupo de amigos que me aceitou sem ressalvas. Se eu contava da minha banda de rock, não reclamavam que eu não tocava pagode. Se eu falava da intenção de cursar jornalismo, não perguntavam o motivo de eu não fazer direito. Se eu me sentia um estranho no ninho, eles também se sentiam. E não me olhavam atravessado quando o meu nariz começava a escorrer.

Passei os anos seguintes tentando abandonar “a turma do fundão”. Para tanto, me aventurei entre intelectuais, boêmios, militantes, artistas, nerds… Mas sem jamais encontrar um ninho no qual me sentisse confortável. Talvez o problema fosse eu. E minha incapacidade de ceder às vontades da tribo. Acontece.

Após alguns anos atribulados, vejo-me novamente escapando da atenção alheia. Se não sou mais do fundo da turma, sou do fundo da casa. Durmo e acordo cedo, contemplo o silêncio, admiro a solidão. Passo horas lavando louça enquanto entrego os ouvidos a sons tranquilos.

Se hoje posso contar com alguém, conto com amigos de descrições pitorescas. São melancólicos, irônicos, depressivos, ansiosos, solitários, sarcásticos. Pessoas que nunca baixaram a cabeça para o sistema, ainda que isso lhes trouxesse algum prejuízo. Pessoas desconfiadas. Mas bem humoradas, divertidas.

Décadas se passaram, e só então percebo: é a turma do fundão rumando aos quarenta anos.

Não é uma história feliz, mas está longe de ser triste. Todavia, é a história de encontro e aceitação de uma turma. A minha.

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Publicado por

apyus

Um cara simples

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