Limites

Naquela época, minha carência não me deixava fazer nada sem que eu tentasse concluir a missão da forma mais inusitada possível. Explorar a criatividade era a arma sacada por mim para conquistar a atenção alheia. E eu precisava muito desta, pois não me suportava só com meus pensamentos.

Há uns 15 anos, Vicente Serejo foi a vítima da vez. Acostumado a nos solicitar redações de temas específicos, mas com tamanho livre, limitou-nos a apenas 20 linhas. Eu nem achava um absurdo, mas meu ego não se conteve. E aquela lauda nasceria em forma de protesto contra as instruções recebidas.

Era uma bobagem, mas eu me achei genial ao colocá-la em prática. Como numa contagem regressiva, cada linha citava organicamente um número. Nem lembro do tema, mas, ao final, a leitura se sufocava na falta de espaço. E minha criatividade concluía reclamando a liberdade que lhe fora tolhida.

Sim, amigos, é duro reconhecer, naquele inverno o termo nem era usado com este sentido, mas eu “lacrei”.

Serejo, que findaria o curso como o melhor e mais educado professor que topara o desafio de me ensinar, faria uso de um sangue frio que ainda invejo. E lembraria a toda a turma que os limites fazem parte da vida, principalmente das carreiras profissionais. Que era preciso jogar o jogo – e aqui já uso minhas próprias palavras – com as ferramentas existentes. E, por vezes, elas seriam pouco úteis, pequenas, minguadas, nada mais do que 20 linhas.

Enfim… O segredo era tirar o máximo do mínimo.

A mim, coube apenas o sorriso amarelo diante da lição. Que me volta à mente sempre que vejo amigos (ou inimigos) indo além dos limites aceitáveis para defenderem seus pontos.

Um bom guerreiro reconhece a força do adversário. E não avança de peito aberto diante da linha inimiga. Ele rasteja, contorna, aguarda em silêncio, calcula, e só ataca quando sente segurança para tal.

São metáforas, claro. Mas que servem a essa “guerra cultural” que enfrentamos. Poucas coisas conseguem ser mais valiosas à humanidade do que o reconhecimento dos próprios limites. E a descoberta destes exige uma boa dose de paciência.

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Publicado por

apyus

Um cara simples

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