Mais um engodo da Folha sobre “fake news”

Sob o título de “Como funciona a engrenagem das notícias falsas no Brasil“, a Folha publicou uma matéria quilométrica para convencer a opinião pública de que de fato as “fake news” estariam interferindo nos rumos políticos do mundo.

Já no início, há um resumo, que aqui divido em três partes para que fique mais claro.

  1. Reportagem mostra como funciona a fábrica de títulos sensacionalistas e inverdades que se disseminam nas redes sociais.
  2. Sites faturam de acordo com a audiência, que conteúdos apelativos impulsionam.
  3. Pesquisas mostram que a maioria dos leitores tem dificuldade em distinguir boatos de informações confiáveis.

Ainda que cite, e apenas cite, outros exemplos, a reportagem não mostra como funciona a tal fábrica, mas o Pensa Brasil, um site que, segundo a matéria, difunde notícias falsas, teria 701 mil visitantes únicos em dezembro, que leram 2,1 milhões de páginas, e estaria fazendo entre R$ 100 mil e R$ 150 mil com publicidade online.

Eu já trabalhei num projeto que fez R$ 200 mil em um único mês só publicando notícias verdadeiras. Mas, para isso, ele precisou de 4 milhões de leitores e 120 milhões de páginas.

Na condição de quem trabalha com isso há alguns anos, afirmo: os números da Folha não fazem sentido para o meio político brasileiro. Do contrário, a própria Folha estaria investindo no formato.

Pelos dados apresentados, cada mil páginas geradas no tal site estariam rendendo uma média de R$ 60,00 ao editor. Quando o mercado está muito bom, tais projetos chegam a R$ 6,00 em média. Mas, no geral, não passam dos R$ 2,00, isso quando superam o R$ 1,00.

Um dos projetos que monitoro teve um milhão de leitores em dezembro, que visualizaram 11 milhões de páginas. Ou seja, maior que o Pensa Brasil. Receita do mês: R$ 10 mil.

É possível chegar a um “ganho por mil” semelhante ao alegado no texto? Sim. Se você escreve em inglês e lida com público de mercados consolidados, como Estados Unidos e Europa. De preferência, em temas que vendem muito melhor do que política, como esportes e tecnologia. Aliás… Se a ideia é ganhar dinheiro como anúncios na web, o pior caminho a se seguir é o político, pois é o que paga pior.

Agora conheçamos o Pensa Brasil, esse gigante da comunicação que teria mudado os rumos do Brasil em 2016. Sabe quantos seguidores ele tem no Twitter? Menos de 3 mil. Meu perfil pessoal tem quase dez mil, mas não mudei os rumos do país – e eu tento todo dia.

Vejamos então no Facebook, dono de dois terços da visitação de basicamente qualquer site hoje em dia. São 28 mil seguidores. Para efeito de comparação, a Folha, autora da matéria, tem 5,8 milhões.

Usando ferramentas do próprio Facebook, eu vivo a comparar a audiência dos maiores veículos do Brasil. É assim que descubro que, hoje, a Folha está engajando 404 mil pessoas, menos do que a IstoÉ (514 mil) e a Exame (com 1,4 milhão), por exemplo:

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Ao acrescentar o Pensa Brasil na lista de sites monitorados, ela passou a ter 35 publicações. E onde o Pensa Brasil ficou? Em 34º lugar, à frente apenas do Aos Fatos. Note o seguinte: ele publicou mais de 250 posts (o limite contabilizado pelo Facebook), mas engajou apenas três mil e oitocentas pessoas. Frise-se: a Folha sozinha engaja 100 vezes mais do que isso. E olha que não estou olhando para a Exame ou Veja ou todos os outros grandes sites de “notícias verdadeiras”.

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Estão vendo a Agência Lupa ali no 31º lugar? Juntamente com o Aos Fatos e a Agência Pública, auxiliarão o Google a definir o que é ou não notícia falsa na internet brasileira, e isso foi noticiado pelo próprio Aos Fatos, essa página que engajou 841 pessoas na última semana (mas o trabalho deles é bacana, eu curto e compartilho vez em quando). Como você nota ao visitar o site da Lupa, ela é ligada ao grupo Folha. Mas incomoda-me ainda mais a Agência Pública. Porque não nega o viés ideológico (o que não é demérito, mas seria interessante esse tipo de coisa partir de alguém mais neutro). E porque tem no conselho “sumidades” como Eliane Brum e Leonardo Sakamoto.

Se você não conhece Sakamoto, conheceria ao ler a matéria sobre notícias falsas na própria Folha. Ele aparece lá nos últimos parágrafos. Segundo o texto, ele acredita que “é necessária uma convenção global para regular a circulação de notícias na internet e a eventual responsabilização por excessos“. Isso mesmo. Um controle Global do que é publicado na Internet. Defendido por Sakamoto.

Por fim: as fake news são um fenômeno com o qual você deva se preocupar?

Bom… Se lesse a matéria completa da Folha, iria dormir tranquilo. Porque só duas pesquisas da dezena apresentada se debruçam sobre a questão. A da USP diz que “os sites de notícias falsas são minoritários no ranking das com maior engajamento“. A outra, contudo, confirma o problema. Qual a fonte da pesquisa? O Buzzfeed. Sim, aquele que vive de fazer listas sem qualquer primor científico.

Em qual você confiaria? USP ou BuzzFeed?

Amigos acham que a Folha deu tanto destaque a essa pauta por motivos mercadológicos. Para mim, não faz sentido, pois trata-se de um gigante esmagando formiguinhas. Eu vou no motivo ideológico mesmo. Pois não fingirei que não notei que, no centro da matéria, há um site de ataques à esquerda brasileira.

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Publicado por

Marlos Ápyus

Um cara simples

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