É só remorso

Talvez não tenha moral, ética ou bondade alguma envolvida. Eu apenas já experimentei algumas poucas vezes o papel de vilão. E, em todas elas, sem exceção, o remorso, a culpa e a vergonha tiveram em mim um efeito muito mais devastador. E duradouro. Porque acho muito mais simples perdoar alguém do que perdoar a mim mesmo.

Quando saquei que este era o gatilho para tantas tormentas, passei a evitar ao máximo. Se volto a ele eventualmente, foi pura fraqueza. Não era o que eu queria. E, certamente, está sendo o pior caminho para mim.

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iFood ecologicamente correto

Infelizmente reaças não costumam dar muita bola para pautas ambientais, mas é um tema que ainda me soa interessante. Porque acredito que todo cidadão deveria ter o dever moral de não só dar o destino correto ao próprio lixo, como o de produzir o mínimo de lixo possível. Afinal, quanto mais lixo se produz, mais o Estado é necessário para dar a ele o devido fim, mais inchado fica o Estado. E a galera do lado de cá possui o interesse na redução deste.

Dito isto, fico um tanto incomodado com a quantidade de lixo gerada por serviços do tipo iFood. Entendo que as marcas se esforçam para entregar ao consumidor a melhor apresentação possível. E percebo que a apresentação é importante. Tanto que o almoço mais recente chegou-me em um pacote para lá de elaborado, mas o sabor estava longe de ter a qualidade que a nota do estabelecimento possuía quando do pedido.

E este caso se enquadra bem no ponto onde eu queria chegar. Meu pedido foi símples: hambúrguer e fritas. Eis a lista do material que recebi, assim como a forma como foi acondicionado:

  • Sacola de papel
    • Caixa de papelão
      • Embalagem plástica
        • Sanduíche
    • Sacola plática
      • Sachet
        • Catchup
      • Sachet
        • Catchup
      • Sachet
        • Maionese
      • Sachet
        • Maionese
      • Sachet
        • Mostarda
      • Sachet
        • Mostarda
    • Caixa de papelão
      • Batatas-fritas
    • Embalagem de plástico
      • Maionese
    • Embalagem de plástico
      • Maionese
    • Guardanapos
    • Sachet
      • Sal
    • Nota Fiscal
    • Menu da lanchonete

Todos os itens em negrito são lixo. A maior parte dessas peças não poderá ser reciclada pois teve contato com o alimento. Os itens em itálico são alimentos não solicitados por mim e, se eu não usá-los em outras oportunidades, irão direto para o lixo orgânico. E eu nunca faço questão de receber a versão imprensa da minha nota fiscal.

Gostaria de relembrar: tudo isso para me entregarem hambúrguer e fritas.

Sou entusiasta de serviços do tipo IFood e sigo na defesa deles. Mas adoraria que todos os envolvidos se esforçassem nessa batalha por um meio ambiente menos poluído. Gostaria, inclusive, que o serviço estimulasse a boa prática, permitindo a usuários ou entidades do setor uma avaliação ecológica da entrega, fornecendo mais pontos a quem entrega um produto menos danoso ao ambiente, e permitindo aos usuários o filtro por este quesito.

Sei que é um papo chato. Mas queria ao menos ter a opção.

Tora reia

Imagino que toda cidade, ou mesmo bairro, tenha um nome distinto para a brincadeira. Na minha escola, era assim que chamávamos. Quando me explicaram, confesso que acreditei se tratar de uma lenda. Até ouvir tão temido grito em meio a uma pelada no intervalo da aula.

O dispositivo pode ser sacado por qualquer cidadão no gozo de sua sanidade enquanto joga uma partida de futebol. Uma vez gritado de forma a ser ouvido por todos os competidores, a Constituição Federal de 1988 é revogada até que sobre o último homem em pé.

Se bem lembro, partiu de Romeu a convocação. No que gritou “tora reia”, Igor converteu-se em um karateca. E, com uma voadora cinematográfica, acertou as costas de Exdras, que, por infelicidade do destino, tinha a posse de bola no local e momento errado.

Se antes todos corriam na direção da pelota, agora todos corriam dela. Ao ponto de que sobrou sozinha ali, de frente para o gol, a alguns metros de onde eu me encontrava. Ingênuo, corri em sua direção. No que acreditei que seria eu a marcar o gol da vitória, o bico do tênis de Flávio deslocou para o lado o calcanhar do meu. Minhas pernas se enroscaram provocando um capotamento que só não se concluiu em distância maior por causa da colisão com a árvore próxima da piscina. Quando dei por mim, de branco, meu uniforme estava marrom de lama.

Em segundos, o campo de futebol se convertera em campo de refugiados. O cenário era de guerra. Corpos se espalhavam pelo chão. Muitos pediam ajuda, poucos podiam ajudar.

Não lembro quem venceu a partida. São memórias com mais de duas décadas. De uma Brasil ainda tricampeão.

Sei apenas que sobrevivi, ainda que não saiba como.


Eu estava satisfeito com o processo de impeachment de Dilma. Apesar de todos os trancos e barrancos, tínhamos chegado ao final respeitando o rito imposto pelo STF. Foi cansativo, mas jogamos limpo, dentro até das regras recém inventadas. Até que Renan Calheiros pediu a palavra. E, segurando a Constituição em suas mãos, disse que votaria para fatiar a punição à presidente já cassada, mantendo com ela direitos políticos que, estava claro, ela tinha que perder.

Era o “tora reia” em nível federal. Ali, deixou-se claro que a Constituição era só uma carta de intenções. Que, basta querer, pode-se ignorá-la.

Desde então, de tribunal dissimulado, o STF converteu-se numa corte explicitamente sonsa. Sem qualquer esforço em esconder que está ali para proteger os mais poderosos da sede de vingança dos menos.

Ainda que pacificamente, o Brasil vive hoje um regime de exceção. Há leis, mas elas só servem aos adversários de quem está no poder. Mais ainda, aos adversários da ideologia que segue no comando, ainda que sua principal encarnação tenha sido realocada para a oposição.

Espero que, ao final desse processo, todos sobrevivamos. Ainda que eu não faça ideia de como.

Twitter, para que te quis?

“Marlos” é fácil: minha mãe tirou de Marlos Nobre, maestro brasileiro que corria o mundo na época em que nasci. Mas de onde veio o “Ápyus”? De minha mãe, ouvi que havia saído da cota do meu pai, que sempre se responsabilizava pelo segundo nome dos filhos. O problema: ele já havia morrido quando me preocupei em saber.

Quando eu perguntava a motores de busca, eles me respondiam com a origem da palavra “larápio”. Que, como percebe-se, nada tem de nobre:

“Houve em Roma um pretor que dava sentenças favoráveis a quem melhor pagava. Chamava-se ele Lucius Antonius Rufus Appius. Sua rubrica era L.A.R. Appius. Daí chamar-lhe o povo larappius, nome que ficou sinônimo de gatuno.”

Meu pai batizou o filho homenageando um corrupto?! Anos depois, a mesma internet me garantiria: não, era uma lenda.

* * *

Meu pai morreu 47 dias antes de eu completar dez anos. Subtraído o período que minha memória não registrou, uma vez que era bastante novo, resta-me a sensação de que vivi com ele menos do que convivi com os companheiros de faculdade. Guardo ótimas lembranças de período tão curto. Contudo, tenho um depósito ao lado no qual acumulo todas as questões que naturalmente faria ele, mas seguirão eternamente sem resposta.

Soa tolo para muitos, mas foi com este pensamento que publiquei um primeiro blog pessoal há coisa de 15 anos. Nele, queria evitar que um futuro filho meu passasse pelo que passei. E tivesse um mínimo registro do que seu pai pensava antes de faltar.

Em 2008, li em outro blog que tinham inventado o “microblog”. A ideia me soava tenebrosa: reduzir os textos a 140 caracteres. Mas possuía um recurso que me interessava. Falo da possibilidade de atualizá-lo por intermédio de SMS, ainda que sem o recurso dos acentos. Isso me permitiria, por intermédio de um plugin, registrar algumas ideias que poderiam ser melhor desenvolvidas num segundo momento. E assim escrevi no Twitter entre abril e dezembro.

Com a virada do ano, por puro tédio, acessei a interface da ferramenta e percebi que havia um grupo de mais ou menos 50 amigos interagindo, ainda que sem resposta, comigo. E finalmente percebi que podia continuar lá a missão assumida no blog, que sairia do ar tempos depois.

No momento em que escrevo estas palavras, já possuo por volta de 11 mil seguidores. Nove anos depois, sinto que poucas brincadeiras mudaram tanto a minha vida. Ali, naquela loucura, já há o registro de ao menos um quarto desta vida. Estão lá os meus erros, os meus acertos, os meus risos, os meus chiliques, e, principalmente, a maior parte dos meus amigos mais próximos.

Já pensei inúmeras vezes em sair de lá. Pelo tanto que me consome tempo. E pelo tanto de estresse que tem gerado recentemente. Mas, de certa forma, sinto-me em débito com aquela missão inicial. Aquilo de conversar com um filho que nunca tive, nem faço planos de ter.

* * *

Há poucos anos, o telefone tocou, era um amigo. Sabia do meu “drama”. E contou-me empolgado. Estava na aula, o professor contava a origem da Via Ápia, uma das principais estrada da Roma antiga. Teria sido assim nomeada em homenagem ao homem que iniciou o projeto: Appius Claudius Caecus.

Tenho fé que veio daí.

“Sua posição sobre o Islamismo”

Nessa madrugada, no que parecia ser uma missão de paz, questionaram-me no Twitter a minha real posição sobre o islamismo. Como percebo ser um tema com o qual venho falhando e deixando muita “ponta solta”, permiti-me uma resposta mais elaborada ao garoto. Resposta esta que compartilho aqui.


Bom, antes de mais nada, acho que cabe ressaltar que minhas opiniões sobre islamismo não necessariamente se aplicam a islamitas. Porque eu não sou louco. Sei que há islâmicos pacíficos, que são uma maioria com a qual eu conviveria harmonicamente e que já até recebeu apoio meu — fui vizinho de refugiados sírios e os ajudei como pude.

Mas o islamismo, como um conjunto de ideias que norteia a vida de alguém, e aqui nem me interessa se tem cunho religioso ou não, me soa algo extremamente instável, inflamável, não recomendável a massas que busquem paz. A leitura mais moderada dele me soa mais radical que a leitura mais radical da Bíblia feita pelos templos evangélicos brasileiros. Se eu vejo necessidade de barrar o avanço político desta, por que não veria necessidade de barrar o avanço dessa?

Também acho bom ressaltar: esses posicionamentos ainda são pouco firmes, verdes, tendem a ir mudando com o tempo e por um bom tempo. E eu reconheço que preciso ter mais cuidado com eles. Justamente porque os revisarei num futuro breve.

Você deve ter acompanhado uns “ataques” que sofri recentemente nas redes sociais, né? Pois bem… Virei alvo pois viram em mim um xenófobo islamofóbico. Eu não me considero nem xenófobo, nem islamofóbico. Mas certamente falhei como comunicador, afinal, fizeram essa leitura do que escrevo.

Então reduzi a marcha até descobrir uma forma melhor de me pronunciar. Por enquanto, acho importante atacar os pontos que julgo para lá de equivocados: a segregação das mulheres, a perseguição a homossexuais e o gritante desrespeito aos direitos das crianças e adolescentes. Em especial, barbaridades como mutilação genital, imposição do uso da burca, recrutamento de crianças para exércitos, o renascimento de mercados escravos na África, apedrejamentos e, claro, atentados terroristas feitos pelo jihadismo mais perverso.

Sobre imigração, eu vinha diferenciando a legal da ilegal, e sempre me posicionando a favor da primeira. Mas me convenci que trata-se de algo ainda mais complexo. A briga é entre imigração controlada e descontrolada. A gente não pode simplesmente passar a receber gente do mundo todo sem ter alguma estrutura, ou importaremos graves problemas para um país já cheio de graves problemas. Muito menos podemos arriscar a soberania nacional permitindo que forças estrangeiras se organizem e invadam o país em missões políticas, e é o que essas leis propostas pelo PSDB — está na cara — mais querem, sabe lá por quê.

Também me preocupa o “petrodólar”. Ele já comprou a F1, está comprando o futebol (comprou Neymar essa semana). É muito confusa a relação disto com grupos terroristas, ditaduras e crime organizado. Já tem dois anos que o PCC bate bola com o Hezzbollah. E uns 10 anos que possui uma bancada do narcotráfico em nosso Congresso. Ele não usa isso para legalizar a maconha, ou encareceria o próprio produto. Ele usa isso para comprar impunidade. E esse trio (bilionários árabes, narcotráfico e classe política brasileira) parece cada dia mais parceiro. Mas a imprensa segue em silêncio, como quem respeita por medo.

Eu tenho muito medo. Pois vejo o Brasil rumar a algo sombrio. E quero muito, muito mesmo, estar errado. Mas constantemente os pontos se ligam e caminham para provar que não era pesadelo, era realidade.

Como sou ateu, não consigo nem pedir ajuda a Deus numa hora dessas. Só me resta, então, desejar sorte a todos nós. Iremos precisar.