Eu apoio voto em lista

Por um motivo que soa simples, mas é um tanto mais complexo: o voto já é em lista. Ao se compreender a dinâmica do quociente eleitoral, percebe-se que as cadeiras das câmaras municipais, assembleias legislativas e Câmara Federal são distribuídas para listas de candidatos, respeitada a ordem do mais para menos votado. A diferença é que, no modelo atual, a lista é formada pelo próprio eleitor no momento em que vota. Já no modelo desejado por Brasília, ela seria definida por cada partido, e o eleitor deixaria de votar em um candidato, mas na ordem definida pela agremiação.

Então o modelo atual seria melhor, certo?

É aqui que eu discordo. Hoje, o eleitor define a lista, mas ele vota às cegas. Ele não sabe quem será o primeiro, o segundo ou terceiro nome dela. Sabe apenas que há um punhado de nomes, que tantas vezes, via coligação, dizem respeito a mais de um partido. E, assim, vota em Tiririca sem perceber que também elege Protógenes Queiroz.

No modelo em discussão, o eleitor teria contato com toda a escalação do time e saberia melhor em quem está votando.

Em Brasília, apostam que assim facilitarão a renovação dos próprios mandatos, o que os protegeria do avanço da Lava Jato na primeira instância. Eu faço uma aposta distinta: hoje, nada fala mais alto numa eleição do que a rejeição. Uma maçã podre causará um impacto enorme no cesto, e forçará o eleitor a buscar outra sigla. Ou essa sigla a se livrar da maçã podre.

Há ainda o fator didático: aqueles parlamentares trabalharão em equipe, porque é assim que a coisa funciona no Congresso. Quero crer que dará mais resultado o eleitor pensar no grupo, e não no indivíduo. E entenderá que este jogo precisa de entrosamento, não de malucos que gritam absurdos sozinhos e nada conseguem de prático além da renovação do próprio mandato.

É uma aposta cara num momento delicado. Mas o modelo atual vem rendendo essas legislaturas porcas. Eu, que tenho pouco a perder, topo arriscar.

Mas segue o spoiler: não vai acontecer.

Orçamento familiar importa!

Há alguns anos, uma campanha publicitária foi duramente criticada por oferecer a mulheres uma promoção de sapatos durante uma partida de futebol. A militância revoltou-se pois não queria atrelada a essas uma futilidade como o desejo por calçados novos. Em resposta, reclamava um interesse igual pelo esporte. Ignorava, claro, que o futebol é uma futilidade ainda maior, pois nem para proteger os pés serve.

Este é um exemplo do que chamo de machismo do feminismo, que é o ato de tomar por inferiores os papéis que historicamente pertenceram a mulheres – ou ainda pertencem, mesmo que não precisem de exclusividade – e, em vez de enaltecê-los, renegá-los a qualquer custo.

Só hoje fiquei sabendo que Michel Temer disse ontem que “ninguém mais é capaz de indicar os desajustes de preços no supermercado do que a mulher“. Foi a forma que o presidente da República encontrou para dizer que nenhum brasileiro percebe melhor as crises econômicas do que as mulheres, uma vez que são elas quem majoritariamente cuidam dos orçamentos familiares.

Há várias explicações. Mas pesco duas, que nascem justamente de situações que as beneficiam: na imensa maioria dos divórcios, a mulher ganha a guarda dos filhos e passa a cuidar sozinha da gestão da casa em que vivem; e homens vivem em média uma década a menos, deixando às viúvas o controle exclusivo de tudo o que a família produziu até ali.

Nos Estados Unidos, isso já rende um efeito político de proporções federais: algumas das principais fortunas do país estão sob os cuidados de matriarcas, que escolhem a dedo os políticos que financiarão nas disputas eleitorais. Não à toa, questões de interesses das mulheres ganham cada vez mais espaço nas campanhas, mesmo as presidenciais.

Mas não precisa ser algo tão amplo. Se você encara o mundo como um organismo social, as nações são os seus órgãos, e as famílias, suas células. Esse reconhecimento não é meramente metafórico, é jurídico, ainda que caiba discussões ou mesmo ajustes no que se entenda por família. Mas fato é que o orçamento familiar é o primeiro orçamento da sociedade. É o prioritário na vida de qualquer cidadão. Por uma jogo de empurra da lógica de mercado, é dele que saem todos os impostos que mantêm um país de pé.

Ter o controle do orçamento familiar não é nenhum demérito, muito pelo contrário. Eu, que não sou pai, estou há meses sem conseguir sair do cheque especial. E vivo a invejar a minha mãe, que educou cinco filhos e ainda guardou reservas para garantir-nos alguns bens apenas com a pensão que recebia desde que o marido morreu.

Minha mãe é uma heroína. Eu aplaudo de pé o que ela conseguiu fazer. Principalmente porque estou há uma década falhando miseravelmente no controle financeiro do meu lar. Entretanto, sei que ela não é a única. Ela faz parte de toda uma massa que não se enxerga na implicância da militância que se ofendeu com as palavras de Temer.

Por mim, Temer se explodia e os estilhaços levariam juntos 98% do Congresso Nacional. Mas o orçamento familiar precisa ser respeitado, principalmente dos arroubos de uma militância histérica que já deixou a razão de lado há tempos.

Enfim… Orçamento familiar importa. E a chance de sua mãe entender disso melhor do que você é enorme.

Herman Benjamin não perguntou?!

Eu lembro de ficar incomodado na campanha com a atuação de Herman Benjamin. O martelo dele até decidia contra a campanha de Dilma, mas parecia muito mais empenhado em podar as de Marina e Aécio — principalmente deste último.

Contudo, quando recentemente iniciou a apuração que pode render a cassação da chapa que reelegeu a petista, fiquei na dúvida: ele queria, por Dilma, vingar-se de Temer, ou apenas fazia o trabalho dele? E tendi à segunda opção, afinal, cassar a chapa era também cassar, desconfiava eu, a protegida do membro do TSE.

Agora, leio na Folha que Benjamin “dá sinais” de que concordará com a tese de que Dilma não merece ficar inelegível pois, apesar de todos os depoimentos dados, ela não teria ciência de nada.

Talvez tenha faltado a Benjamin fazer a Marcelo Odebrecht a pergunta curta e incômoda: ela sabia? Se tivesse feito, ouviria do empreiteiro o que já foi capa da IstoÉ: sim, não só sabia, como deu aval. Chegou a confirmar pessoalmente ao delator que uma nova carga de R$ 12 milhões precisaria irrigar o caixa dois. E que metade daquele volume iria para o PMDB. Tudo isso referendando o que já havia pedido o tesoureiro de campanha. Ou seja… Ela estava ciente dos movimentos deste.

Com isso, voltei a ter motivos para desconfiar da postura do ministro nomeado por Lula ao STJ em 2006, quando o ex-presidente, instruído por Marcio Thomaz Bastos, já escolhia para a Justiça currículos que pudessem ser úteis no julgamento do Mensalão.

“Pronto: sabotei o PT. Agora só falta o PSDB sabotar o PSDB.”

Encontrei as palavras do título na linha final de uma ótima coluna de Diogo Mainardi republicada pelo blog de Reinaldo Azevedo em 31 de outubro de 2009. O ainda colunista da Veja alegava ter ouvido dos marketeiros de Serra e Aécio que somente uma chapa presidencial com ambos seria capaz de “sabotar” os planos do PT, que já trabalhava o nome de Dilma para a sucessão de Lula.

O cálculo envolvia uma vitória dupla: São Paulo e Minas Gerais. E isso só seria possível com os principais nomes de cada Estado concorrendo em parceria. Do contrário, o PT venceria em Minas.

Eu não sou marketeiro, mas sei que o PSDB só logrará o êxito que almeja se unir seus dois maiores trunfos em 2018. Para isso, a estratégia parece-me simples: José Serra mantém o governo de São Paulo com o próprio partido (a vitória mais previsível de todas); Aécio Neves renova o mandato para o Senado já mirando a presidência da casa, e isso tem que acontecer com a reconquista de Minas (talvez Anastasia seja outra aposta de baixo risco); se for esperto, emplaca um “outsider” amigo no governo do Rio de Janeiro, estado onde morou nos últimos anos, hoje uma terra arrasada com tantos ex-governadores enfrentando graves problemas com a Justiça.

Tudo isso para que Geraldo Alckmin seja o próximo presidente da República. É o nome que “venceu” a eleição de 2016, é o dono de uma estratégia que funcionou e está funcionando em São Paulo, e está com uma sede enorme de fazer isso no resto do país.

Não é nada de outro mundo. É o que qualquer partido sério faria: avaliaria seus melhores quadros e reservaria aos maiores as maiores conquistas.

Mas o PSDB sempre sabota o PSDB. E diariamente surgem notinhas defendendo uma candidatura presidencial de João Doria, alguém com dois meses de trabalho como prefeito.

Essas notas não querem Doria na Presidência. Querem um conflito entre ele e seu padrinho, Alckmin. Creem que, implodindo a relação, implodem ambos, e abrem caminho para Serra ou Aécio, ou Serra e Aécio, uma dupla cuja rejeição Lula adoraria ver somada.

Naquele 31 de outubro de 2009, Mainardi terminou a coluna dizendo: “Agora só falta o PSDB sabotar o PSDB“. No dia seguinte, primeiro de novembro de 2009, às 12h09, Juca Kfouri noticiou que Aécio Neves bateu na “acompanhante” numa festa no Rio de Janeiro.

Eu sou o tipo de pessoa que tem muita dificuldade para acreditar em coincidências. Mas, coincidência ou não, no ano seguinte, o vice de José Serra foi Índio da Costa. E Aécio teve que dar muita explicação sobre o episódio do Fasano em 2014.

Limites

Naquela época, minha carência não me deixava fazer nada sem que eu tentasse concluir a missão da forma mais inusitada possível. Explorar a criatividade era a arma sacada por mim para conquistar a atenção alheia. E eu precisava muito desta, pois não me suportava só com meus pensamentos.

Há uns 15 anos, Vicente Serejo foi a vítima da vez. Acostumado a nos solicitar redações de temas específicos, mas com tamanho livre, limitou-nos a apenas 20 linhas. Eu nem achava um absurdo, mas meu ego não se conteve. E aquela lauda nasceria em forma de protesto contra as instruções recebidas.

Era uma bobagem, mas eu me achei genial ao colocá-la em prática. Como numa contagem regressiva, cada linha citava organicamente um número. Nem lembro do tema, mas, ao final, a leitura se sufocava na falta de espaço. E minha criatividade concluía reclamando a liberdade que lhe fora tolhida.

Sim, amigos, é duro reconhecer, naquele inverno o termo nem era usado com este sentido, mas eu “lacrei”.

Serejo, que findaria o curso como o melhor e mais educado professor que topara o desafio de me ensinar, faria uso de um sangue frio que ainda invejo. E lembraria a toda a turma que os limites fazem parte da vida, principalmente das carreiras profissionais. Que era preciso jogar o jogo – e aqui já uso minhas próprias palavras – com as ferramentas existentes. E, por vezes, elas seriam pouco úteis, pequenas, minguadas, nada mais do que 20 linhas.

Enfim… O segredo era tirar o máximo do mínimo.

A mim, coube apenas o sorriso amarelo diante da lição. Que me volta à mente sempre que vejo amigos (ou inimigos) indo além dos limites aceitáveis para defenderem seus pontos.

Um bom guerreiro reconhece a força do adversário. E não avança de peito aberto diante da linha inimiga. Ele rasteja, contorna, aguarda em silêncio, calcula, e só ataca quando sente segurança para tal.

São metáforas, claro. Mas que servem a essa “guerra cultural” que enfrentamos. Poucas coisas conseguem ser mais valiosas à humanidade do que o reconhecimento dos próprios limites. E a descoberta destes exige uma boa dose de paciência.

Os nomes na MP

Marcelo Odebrecht confessou ao TSE que um terço dos R$ 150 milhões doados à campanha de Dilma em 2014 foram entregues em contrapartida a Medida Provisória de 2009 que beneficiou uma empresa do grupo. Em palavras mais simples, a empreiteira teria comprado com R$ 50 milhões uma MP do governo Lula.

As palavras de Marcelo Odebrecht fazem referência à Lei 11.941, de 27 de maio de 2009.

Ao rolar a página até o final, é possível conferir os nomes que assinam o documento:

  • LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
  • Tarso Genro
  • Guido Mantega
  • Reinhold Stephanes
  • José Antonio Dias Toffoli

Atualização 11h07

Com conteúdo do Estadão, o Zero Hora noticiou que a MP negociada pela Odebrecht com o governo Lula seria a “medida provisória do REFIS“. REFIS é o tema central da lei 11.941 citada mais acima, mas o Antagonista deixa claro que a MP citada por Marcelo é a 470, de 13 de outubro de 2009, semanas após Lula indicar Dias Toffoli ao STF – o mandato deste começaria apenas dez dias depois.

Na assinatura da referida MP, constam apenas os nomes de Lula e Guido Mantega.