Twitter, para que te quis?

“Marlos” é fácil: minha mãe tirou de Marlos Nobre, maestro brasileiro que corria o mundo na época em que nasci. Mas de onde veio o “Ápyus”? De minha mãe, ouvi que havia saído da cota do meu pai, que sempre se responsabilizava pelo segundo nome dos filhos. O problema: ele já havia morrido quando me preocupei em saber.

Quando eu perguntava a motores de busca, eles me respondiam com a origem da palavra “larápio”. Que, como percebe-se, nada tem de nobre:

“Houve em Roma um pretor que dava sentenças favoráveis a quem melhor pagava. Chamava-se ele Lucius Antonius Rufus Appius. Sua rubrica era L.A.R. Appius. Daí chamar-lhe o povo larappius, nome que ficou sinônimo de gatuno.”

Meu pai batizou o filho homenageando um corrupto?! Anos depois, a mesma internet me garantiria: não, era uma lenda.

* * *

Meu pai morreu 47 dias antes de eu completar dez anos. Subtraído o período que minha memória não registrou, uma vez que era bastante novo, resta-me a sensação de que vivi com ele menos do que convivi com os companheiros de faculdade. Guardo ótimas lembranças de período tão curto. Contudo, tenho um depósito ao lado no qual acumulo todas as questões que naturalmente faria ele, mas seguirão eternamente sem resposta.

Soa tolo para muitos, mas foi com este pensamento que publiquei um primeiro blog pessoal há coisa de 15 anos. Nele, queria evitar que um futuro filho meu passasse pelo que passei. E tivesse um mínimo registro do que seu pai pensava antes de faltar.

Em 2008, li em outro blog que tinham inventado o “microblog”. A ideia me soava tenebrosa: reduzir os textos a 140 caracteres. Mas possuía um recurso que me interessava. Falo da possibilidade de atualizá-lo por intermédio de SMS, ainda que sem o recurso dos acentos. Isso me permitiria, por intermédio de um plugin, registrar algumas ideias que poderiam ser melhor desenvolvidas num segundo momento. E assim escrevi no Twitter entre abril e dezembro.

Com a virada do ano, por puro tédio, acessei a interface da ferramenta e percebi que havia um grupo de mais ou menos 50 amigos interagindo, ainda que sem resposta, comigo. E finalmente percebi que podia continuar lá a missão assumida no blog, que sairia do ar tempos depois.

No momento em que escrevo estas palavras, já possuo por volta de 11 mil seguidores. Nove anos depois, sinto que poucas brincadeiras mudaram tanto a minha vida. Ali, naquela loucura, já há o registro de ao menos um quarto desta vida. Estão lá os meus erros, os meus acertos, os meus risos, os meus chiliques, e, principalmente, a maior parte dos meus amigos mais próximos.

Já pensei inúmeras vezes em sair de lá. Pelo tanto que me consome tempo. E pelo tanto de estresse que tem gerado recentemente. Mas, de certa forma, sinto-me em débito com aquela missão inicial. Aquilo de conversar com um filho que nunca tive, nem faço planos de ter.

* * *

Há poucos anos, o telefone tocou, era um amigo. Sabia do meu “drama”. E contou-me empolgado. Estava na aula, o professor contava a origem da Via Ápia, uma das principais estrada da Roma antiga. Teria sido assim nomeada em homenagem ao homem que iniciou o projeto: Appius Claudius Caecus.

Tenho fé que veio daí.

“Sua posição sobre o Islamismo”

Nessa madrugada, no que parecia ser uma missão de paz, questionaram-me no Twitter a minha real posição sobre o islamismo. Como percebo ser um tema com o qual venho falhando e deixando muita “ponta solta”, permiti-me uma resposta mais elaborada ao garoto. Resposta esta que compartilho aqui.


Bom, antes de mais nada, acho que cabe ressaltar que minhas opiniões sobre islamismo não necessariamente se aplicam a islamitas. Porque eu não sou louco. Sei que há islâmicos pacíficos, que são uma maioria com a qual eu conviveria harmonicamente e que já até recebeu apoio meu — fui vizinho de refugiados sírios e os ajudei como pude.

Mas o islamismo, como um conjunto de ideias que norteia a vida de alguém, e aqui nem me interessa se tem cunho religioso ou não, me soa algo extremamente instável, inflamável, não recomendável a massas que busquem paz. A leitura mais moderada dele me soa mais radical que a leitura mais radical da Bíblia feita pelos templos evangélicos brasileiros. Se eu vejo necessidade de barrar o avanço político desta, por que não veria necessidade de barrar o avanço dessa?

Também acho bom ressaltar: esses posicionamentos ainda são pouco firmes, verdes, tendem a ir mudando com o tempo e por um bom tempo. E eu reconheço que preciso ter mais cuidado com eles. Justamente porque os revisarei num futuro breve.

Você deve ter acompanhado uns “ataques” que sofri recentemente nas redes sociais, né? Pois bem… Virei alvo pois viram em mim um xenófobo islamofóbico. Eu não me considero nem xenófobo, nem islamofóbico. Mas certamente falhei como comunicador, afinal, fizeram essa leitura do que escrevo.

Então reduzi a marcha até descobrir uma forma melhor de me pronunciar. Por enquanto, acho importante atacar os pontos que julgo para lá de equivocados: a segregação das mulheres, a perseguição a homossexuais e o gritante desrespeito aos direitos das crianças e adolescentes. Em especial, barbaridades como mutilação genital, imposição do uso da burca, recrutamento de crianças para exércitos, o renascimento de mercados escravos na África, apedrejamentos e, claro, atentados terroristas feitos pelo jihadismo mais perverso.

Sobre imigração, eu vinha diferenciando a legal da ilegal, e sempre me posicionando a favor da primeira. Mas me convenci que trata-se de algo ainda mais complexo. A briga é entre imigração controlada e descontrolada. A gente não pode simplesmente passar a receber gente do mundo todo sem ter alguma estrutura, ou importaremos graves problemas para um país já cheio de graves problemas. Muito menos podemos arriscar a soberania nacional permitindo que forças estrangeiras se organizem e invadam o país em missões políticas, e é o que essas leis propostas pelo PSDB — está na cara — mais querem, sabe lá por quê.

Também me preocupa o “petrodólar”. Ele já comprou a F1, está comprando o futebol (comprou Neymar essa semana). É muito confusa a relação disto com grupos terroristas, ditaduras e crime organizado. Já tem dois anos que o PCC bate bola com o Hezzbollah. E uns 10 anos que possui uma bancada do narcotráfico em nosso Congresso. Ele não usa isso para legalizar a maconha, ou encareceria o próprio produto. Ele usa isso para comprar impunidade. E esse trio (bilionários árabes, narcotráfico e classe política brasileira) parece cada dia mais parceiro. Mas a imprensa segue em silêncio, como quem respeita por medo.

Eu tenho muito medo. Pois vejo o Brasil rumar a algo sombrio. E quero muito, muito mesmo, estar errado. Mas constantemente os pontos se ligam e caminham para provar que não era pesadelo, era realidade.

Como sou ateu, não consigo nem pedir ajuda a Deus numa hora dessas. Só me resta, então, desejar sorte a todos nós. Iremos precisar.

Campanha pelo unfriend

Sempre que você tem uma oportunidade para oferecer a um desconhecido, um emprego, um frila, um convite, e alguém se habilita, o que você faz?

Aqui, há um procedimento padrão. Primeiro, jogamos o nome da pessoa no Google. No geral, dois sites surgirão entre as primeiras opções. O LinkedIn é bom para conferir as qualificações. Do Facebook, o que mais interessa são os amigos em comum. Porque, com essa em lista em mãos, passa-se à etapa seguinte: perguntar aos conhecidos o que acham do concorrente.

E é aqui que mora o perigo. É muito comum livrar-mo-nos de amizades conflituosas simplesmente “silenciando-as” nas redes sociais. Mas, para a pessoa que visita o nosso perfil, ainda constará algum nível de proximidade.

E se calhar de a pessoa com a oportunidade da sua vida ter por amigo em comum apenas aquela figura que não vai com sua cara? Será que ela irá falar bem de você? Ou dirá que você não passa de uma enrascada?

Por isso, cheguei à conclusão que colecionar falsas amizades virtuais apenas para evitar um estresse há de ser uma enorme roubada. E passei a defender o “unfriend” e o “unfollow” mais do que nunca. Sim, renderá algum estresse. Mas é para um bem maior. O seu.

O mal que o anonimato faz nas redes sociais

O primeiro caso: a figura era muito gente boa, divertida, todos a seguiam e a adoravam. Por um problema pessoal, preferiu fechar sua existência nas redes sociais. Voltou pouco depois com um perfil anônimo. Neste, é ácido, rancoroso, agressivo até. O típico perfil que os bilionários do Vale do Silício adorariam derrubar, pois deixa o ambiente tóxico e afugenta outros usuários.

O segundo caso: o perfil anônimo era chato, inconveniente, barulhento, perdia a razão em inúmeras oportunidades. Um dia, foi desmascarado. Imediatamente passou a ser mais comedido, dosava melhor o que dizia, soava mais sensato. Hoje, eu gosto muito mais dele assim.

A melhor forma de preservar a liberdade de expressão na redes sociais é acabar com o anonimato. Sem ele, os usuários entenderão que o que falam gera consequências, para quem fala e para quem escuta. E terão naturalmente um comportamento mais responsável.

Sem o anonimato, o trabalho da Justiça é bastante facilitado. Nenhum anônimo consegue se esconder para sempre. Mas encontrar o esconderijo custa uma pequena fortuna. Só os mais ricos têm condições de se protegerem destes ataques.

No próprio Twitter, já há uma opção para uma interação exclusiva com contas verificadas. Mas o selo continua sendo um mistério aos leigos. No dia em que uma rede social aceitar apenas usuários identificados, quero crer, criará um ambiente muito mais harmônico quebrando as pernas da concorrência.

Porque ligar o celular apenas para se estressar uma hora cansa. E esse cansaço já se fez sentir no bolso de muito bilionário. Está aí o Twitter como melhor exemplo.

Quem filma com Nolan filma diferente, viu?

Alguém precisa dizer a Nolan que ele até pode ser o melhor cineasta em atividade, mas só faz mal a ele trabalhar acreditando nisso. Não era difícil entregar O filme de super-herói de todos os tempos. Mas transformar a conquista em meta para qualquer gênero apenas faz com que soe um artista de ego inflado.

Dunkirk não pega nem vaga da Sul-Americana entre os filmes de guerra, nem pódio no currículo do próprio Nolan — o diretor já esteve melhor em Interestellar, Inception e The Dark Knight.

É bom. É bem filmado. Tem sua importância histórica. É belo! Mas acaba por aí. De resto, parece coisa de um calouro que, no primeiro exercício, quer molejisticamente ensinar aos veteranos como é que se faz.

Na terceira conferida no relógio, percebi que o fã-clube havia me enganado mais uma vez. Se continuar assim, no dia que Nolan lançar o melhor filme de todos os tempos, ninguém vai acreditar.

Bates Motel promoveu um “encontro” entre Hitchcock e Lynch

Ao final de cada episódio, era desnecessariamente lembrado ao público que a história inspirava-se no clássico de Hitchcock. Mas Carlton Cuse em pessoa confessou que a produção deste prelúdio tinha Twin Peaks como musa, o que só somou pontos à investida.

Ausente no livro e no filme, o acréscimo de um irmão para Norman Bates parece ter vindo da história real de Ed Gein, o assassino que serviu de base para Robert Bloch lançar Psycho em 1959. Foi uma aposta bem sucedida, que rendeu o personagem mais carismático numa série repleta de concorrentes.

Com dez episódios de 40 minutos, o A&E parece ter encontrado a metragem ideal para maratonistas de streaming. Público e crítica concordaram que o trabalho só melhorou com o tempo, e Bates Motel concluiu-se no alge após cinco temporadas. Para mim, no entanto, nada supera a segunda, que assumiu a missão de  fazer com que o público compreendesse o que os dois personagens principais sentiam um pelo outro.

Com spoilers

Eu não lembro de outra produção pop mergulhar tão profundamente no complexo de Édipo. Ainda que tenha terceirizado o incesto a um personagem coadjuvante, o mérito do segundo ano foi o de justamente convencer o espectador de que Norma e Norman se amavam não como mãe e filho, mas como esposa e marido.

No entanto, onde público e crítica mais viram méritos, foi onde mais notei escolhas equivocadas. Marion Crane merecia ser interpretada por uma atriz, e não por Rihanna. A caracterização da personagem como negra, o fato de a vítima ter sido o amante dela, e todo o contexto criado para justificar as facadas desferidas por Norma/Norman na banheira soaram uma covarde rendição dos roteiristas ao politicamanete correto dos últimos anos. E a graça com a cena mais clássica do filme findou desrespeitando o legado de um dos diretores mais celebrados do cinema.

Curiosamente, nem filme, nem série tiveram coragem de mencionar o detalhe mais pesado do romance: a necrofilia incestuosa do personagem principal. Certamente teria resultado numa história ainda mais impactante. O que, claro, colocaria em risco cinco anos de trabalho. Mas Cuse, ainda escaldado pelo final de Lost, preferiu aqui entregar apenas o que o público queria ver. E quem há de recriminá-lo por isso?

E agora, amigos, para onde?

Creio que o maior erro desse imbróglio é dividir os envolvidos em apenas dois grupos para lá de confusos. Eu enxergo alguns personagens a mais: há, claro, os governistas, que, a exemplo do que já aconteceu no processo de cassação no TSE, mais uma vez se safaram mesmo com a apresentação de provas barulhentas; dissimulado ou não, há o petismo de todos aqueles que fizeram corpo mole para os 13 anos de roubalheira do PT, como a imprensa, a classe artística, a PGR, a CNBB, a OAB, o movimento estudantil, o sindicalismo e basicamente qualquer formador de opinião mais tradicional; há a classe média, principal defensora da operação Lava Jato, a de verdade, aquela de Curitiba, e não essa de Brasília que oferece anistia a um dos empresários que mais lesou a nação; e há o que chamarei aqui de povo, as classes menos favorecidas, que só costumam se pronunciar nas urnas mesmo, que são a todo tempo cortejadas e são as que mais sofrem dos efeitos danosos de uma estrutura pública ineficaz.

É possível ainda dividir a classe média em dois subgrupos: vou chamá-los de liberais, que acreditam na necessidade de algum cálculo político para seguir adiante, e de conservadores, que se agarram aos próprios princípios e, com bastante razão, acreditam que se desgarrar deles é apenas repetir os erros que nos trouxeram até aqui.

Eu hoje me vejo entre estes dois últimos grupos. Entendo que minha profissão tem por missão defender princípios. E atacarei todos os que erram sempre que se fizerem merecedores. Mas entendo perfeitamente a necessidade do cálculo político. A Lava Jato, em si, só chegou aonde está hoje por fazer muita conta. E o melhor exemplo é a condenação de Lula: havia motivos de sobra para prendê-lo, mas Sérgio Moro entendeu que uma prisão agora iniciaria toda uma cadeia de reações que colocaria tudo a perder.

Nessa briga interna da classe média, os liberais ganharam momentaneamente a briga. Os manifestantes não foram às ruas, não bateram panela, sentem nojo do governo Temer, mas o recebem como um remédio amargo para evitar uma volta do PT. Todavia, quem corre por fora são os conservadores, os únicos até aqui com um candidato que está assustando o adversário.

Em resumo: o petismo mandou um “all in” contra o governo Temer, a classe média sacou o movimento, não deu cobertura ao ataque, os governistas se sentiram livres para engavetarem tudo, e até sufocaram a Lava Jato, que sobreviveu, sabe lá por quanto tempo. Quanto ao povo, assiste a tudo de saco cheio, há de se pronunciar a respeito apenas nas urnas – como vem fazendo nas últimas décadas.

Mas e agora, amigos, o que fazer?

A batalha acabou, a guerra segue seu curso. Agora, imagino, é cuidar dos feridos. A austeridade sofreu um duro golpe, assim como a Lava Jato curitibana. Ambas precisam de mais proteção do que nunca, e certamente poderão contar com o apoio da classe média como um todo (liberais e conservadores).

O governismo e o petismo serão resolvidos em 2018: a internet se lembra. E fará questão de lembrar a todos os eleitores o que PMDB, PSDB, PT, PCdoB, PSOL, PDT, PSB, DEM, REDE e PP estão aprontando. Isso renderá uma chance de ouro para siglas nanicas que não se envolveram nas denúncias ou nesses movimentos sujos, como NOVO, PSL e PV. Que estas façam bom uso da oportunidade.

Eu ainda vejo uma janela – apertada, é verdade – para que a classe média proponha nomes às disputas do ano que vem. Eu curto alguns nomes, e acho que eles poderiam se arriscar: Janaina Paschoal, Fernando Gabeira, Mansueto Almeida, Julio Marcelo e Flávio Rocha foram os que me ocorreram em âmbito nacional.

Em resumo: defender a Lava Jato, defender a austeridade, construir alternativas.

E principalmente: dialogar com o povo. Eles farão a diferença mais uma vez. Lula, Ciros Gomes e Jair Bolsonaro já sacaram isso e já foram às ruas para o corpo a corpo. Se você não gosta destas três alternativas, está mais do que na hora de buscar diálogo semelhante.

De minha parte, as alternativas estão sendo construídas no politicas.info e implicante.org. Quero crer que farei de ambos bons canais para a cobertura disso tudo. Torçam por mim. Agradecerei.

Qual o real significado de Wonderwall?

Lembro de um professor tentar explicá-lo numa aula de inglês. Mas era nitidamente oferecida uma interpretação própria. Mais ou menos como as que encontrei no Urban Dictionary ou nos “yahoos resposta genéricos”.

Isso, por si só, me permite criar a minha. Então tentemos.

Noel ao menos explicou o que queria com ela:

“É uma canção sobre um amigo imaginário que surgirá para te salvar de você mesmo.”

No trecho mais famoso, a letra diz:

“Porque talvez você seja a pessoa que irá me salvar. E, ao final, você é meu Wonderwall.”

Algo que se sabe, no entanto, e como quase tudo feito pelo Oasis em seus três primeiros álbuns: “Wonderwall” é uma referência aos Beatles. Mais especificamente, a Wonderwall Music, álbum com a trilha sonora de Wonderwall, filme de 1968 dirigido por Joe Massot, que anos depois ficaria conhecido por The Song Remains The Same, o registro em vídeo mais famoso do Led Zeppelin.

No IMDB, um fã apresentou assim o enredo:

“O excêntrico professor Oscar Collins vive completamente isolado no seu apartamento caótico. Quando uma modelo (Penny Lane) e seu namorado fotógrafo se mudam para a vizinhança, ele fica fascinado por ela. Ele perfura buracos nas paredes e no teto, e a fica espiando dia e noite. Ele perde-se em sonhos e ilusões.”

Wonderwall seria, então, um muro que te permite ver a maravilha que há do outro lado? Se o Oasis estivesse homenageando Massot, talvez. Mas a referência era aos Beatles.

Wonderwall Music é um álbum quase todo instrumental, parte gravado na Inglaterra, parte gravado na Índia. A despeito da qualidade artística, entrou para a história da música como o primeiro trabalho solo de um beatle. No caso, o beatle que mais era tolhido pela criatividade da dupla que mais se destacava na banda: George Harrison.

Dizer que alguém é o seu Wonderwall é dizer que alguém é o álbum que provou a Harrison que este seria capaz de ser bem sucedido sem o apoio dos gênios que o impediam de se mostrar também genial.

Em outras palavras, Wonderwall não é um muro, é um álbum musical clássico. Ou uma conquista individual capaz de provar a capacidade de alguém. Ou seja, um baita elogio ao tal amigo imaginário que pode nos salvas de nós mesmos.

Foi uma boa voltar ao Tweetdeck

O Tweetbot sempre se mostrou como melhor alternativa aos que queriam um tanto a mais do Twitter. Mas há um ano vinha com incômodos atrasos na atualização. Em especial: a ausência de enquetes e DMs coletivas, o que forçava a abertura ocasional do navegador para entender o conteúdo.

Como utilizo três contas ao mesmo tempo (pessoal, noticiário nacional, noticiário internacional), forcei-me a uma volta ao Tweetdeck, que eu usava antes de aderir ao Tweetbot. E encontrei ainda mais vantagens: menções das três contas em uma única coluna, com o mesmo recurso para DMs; arquivamento de conteúdo lido; lista privadas que atualizam automaticamente. Com esta última, consigo controlar melhor a TL sem ferir o ego de tantos amigos que se incomodariam com um unfollow – temporário ou não – meu.

Para não sobrecarregar o Chrome, onde costumo usar de quatro a cinco abas simultaneamente, uma boa alternativa foi explorar o Safari apenas para o Tweetdeck. Meu macbook, ainda no modelo branco de 2010, está resistindo bem.

Estão dadas as dicas.

Chega de “Where Is My Mind?”

Com spoilers de Clube da Luta, Leftovers, Mr Robot e Westworld.

O personagem principal se descobre esquizofrênico e Where Is My Mind entra na trilha sonora.

Rolou em Fight Club (1999):

Em The Leftovers (2014):

Em Mr. Robot (2015):

Não era bem esquizofrenia, mas envolve também vozes dentro da mente. Westworld (2016):

Ela também está em Mr Nobody (2009):

Em Sucker Punch (2011):

Horns (2013):

Suicide Squad (2016):

E Criminal Minds (2005):

Fãs acharam pouco e criaram um clipe em homenagem a Breaking Bad com ela:

Por mim, chega.

Quem o Netflix pensa que engana com Nobody Speak?

Entreguei-me a Nobody Speak: Trials of the Free Press salivando para entender a vingança fria e calculada que faliu o Gawker e fez com que o Gizmodo pedisse recuperação judicial. Mas encontrei um punhando de jornalistas cínicos vendendo-se como profissionais de um ramo cândido vitimados por bilionários que apenas queriam eleger Donald Trump e calar a imprensa.

Essa mesma imprensa não pensa duas vezes antes de me retratar como golpista, islamofóbico, ultradireitista e disseminador de notícias falsas. Essa mesma imprensa aproveitou o início de 2017 para atacar o AdSense e quebrar a fonte de receitas de milhares de projetos alternativos que, como os meus, não se renderam ao discurso dela. Mas nada disso aparece em Nobody Speak.

O recorte só mostra o chilique de Trump contra os jornalistas, sem contexto, sem as falsas denúncias de estupro, a veiculação de notícias não verificadas sobre urina nos colchões de hotéis russos, o gritante tratamento diferenciado recebido pelo republicano nos debates televisionados e, enfim, a forma como ele estava muito mais em sintonia com o que o eleitor americano pensava.

Peter Thiel, que é parodiado na ficção como uma rara mente do Vale do Silício a não mirar apenas ganhos com ações, é pintado como um bilionário censor e vingativo. O jornalista que o tirou do armário justifica a publicação dos detalhes íntimos por também ser gay e não ver nada errado em alguém ser gay. Mas ignora que eu aprendi justo com gays como ele que quem decide a hora de sair do armário é o próprio homossexual enrustido. Afinal, ninguém sabe melhor do que este a angústia, drama e riscos pelos quais passa. E essa regra deveria valer até mesmo para bilionários como Thiel.

Mas Thiel é libertário. E pediu voto para Trump. Com ele, não só pode, deve.

Se você acha que nessa guerra tem vilões apenas de um lado, talvez até curta Nobody Speak. Mas se você sabe como a apuração de notícias é cara, e que ela só se mantém com o aporte de ricaços de todos as cores e crenças, perceberá que o documentário de Brian Knappenberger é apenas mais uma peça de propaganda política a apostar na falta de informação do público. Do tipo de apostador que cada vez mais perde apostas.

Três pontos incômodos da reforma trabalhista

O site do Senado publicou um resumo para quem, como eu, estava com dificuldade para acompanhar as discussões sobre a Reforma Trabalhista. Na breve leitura, nota-se um esforço em trazer para um novo século uma relação de trabalho desenhada ainda nos anos 1940. O que não nos impede de colocar o pé atrás com algumas medidas.

Três – ou “apenas três” – de fato me incomodaram:

  • O trecho que atinge “gestantes e lactantes”. E o problema não é nem permitir o trabalho em duas das três categorias de insalubridade. É deixar a cargo da mulher grávida, ou com filho recém-nascido, a obtenção de um atestado que a impeça de trabalhar em situação degradante.
  • O trecho sobre “autônomos exclusivos”. Pelo parágrafo publicado no site do Senado, legaliza-se por completo os “pejotas”, profissionais que mascaram a CLT se fazendo passar por empresas. É uma relação que poderia existir, mas não em caráter de exclusividade.
  • Os danos morais proporcionais ao salário. Pois criam uma desnecessária cisão em que vítimas de um mesmo dano receberão indenizações de valores distintos, ou até bem distintos.

Eu ainda pretendo dedicar mais leitura ao tema, principalmente sobre os tópicos acima. Quero crer que o resumo do Senado deixou escapar nuances de toda a discussão. Mas, por enquanto, são os trechos que me soam merecedores de vetos.

Apesar de tudo, é boa a notícia de que a Globo não consegue derrubar presidente

Porque quem tem que derrubar presidente da República é o povo, e não um grupo de anunciantes reunidos a portas fechadas com o presidente da Câmara.

Houve uma convocação. E todas as linhas auxiliares distribuíram convites: OAB, CNBB, imprensa, classe artísticas, sindicatos, movimento estudantil, etc… Décadas atrás, qualquer um desses gritando rimas pobres sob os balões da CUT era chamado de povo. Com o impeachment de Dilma, a classe média elevou o ponto de corte. Se milhões não tomam as ruas, e com as cores do país, não podem chamar de povo, apenas de militantes.

Sem pressão popular, os parlamentares não cedem, por mais que a imprensa antecipe o fim. Ao menos é o que se observou por toda a história. E o que se observa também até aqui.

A manutenção de tantos corruptos no poder é, sim, péssima notícia. Mas, ao que tudo indica, entre a impunidade para esta corja, e o risco de devolver o comando a um grupo político tão antipático à democracia, o povo viu prejuízo menor na primeira opção. E, ainda que seja meu dever de ofício defender o contrário, não consigo recriminar a decisão dele.

The Returned era mais Lost do que The Leftovers

Cuse e Lindelof saíram traumatizados de Lost. Porque escreveram um mistério tão instigante que, ao final, foram incapazes de bolar um desfecho tão interessante quanto a jornada. Eu gostei. Mas entendo a revolta gerada ali por 2010.

Desde então, o trabalho da dupla é visto com ceticismo pelo público. Lindelof apareceu com Leftovers, um drama sobre pessoas que somem, que só ganhou aplausos da segunda temporada em diante. Cuse tem ido bem com Bates Motel, mas o algoritmo do Netflix primeiro me convenceu a conferir The Returned, um suspense sobre, vejam só, pessoas que ressurgem.

Após descobrir que a adaptação americana de Les Revenants veio de metade dos criadores de Lost, as comparações se impõem. Se esta tinha uma ilha misteriosa, essa possui uma pequena cidade como antagonista. A “fumaça preta” deu vez a uma “água preta”. Os flashbacks e os episódios dedicados às origens de personagens específicos são peças importantes de ambas. Há também o personagem místico que acredita entender melhor todo o mistério e ser capaz de guiar os perdidos — em vão.

Até a gororoba com ervas para curas mágicas deu as caras novamente. E, claro, os vícios de roteiro: várias das decisões dos personagens, justo aquelas que mais sustentam os mistérios, não convencem.

Talvez Cuse preparasse o terreno para contar uma segunda história dentro do mesmo universo. Mas jamais saberemos, pois a série foi cancelada ao fim da primeira temporada, e com pontas bem soltas. Mas serve como diversão. Ou ainda como motor para uma busca pela versão francesa. Nesta, a segunda temporada foi ao ar, ainda que a história tenha tomado um rumo bem distinto.

Ainda estudando o adversário

A verdade é que a direita brasileira é verde, amadora, renasceu das cinzas após o inverno de 2013. E luta contra veteranos que estão neste jogo há décadas. Por isso me permito tentar aprender algo com o adversário. E, cada vez mais, atenho-me ao lema “a luta continua, companheiro”.

Há três lições aí.

Primeira: a luta não tem fim, não tem descanso, não há um momento em que você se aposente dela.

Segunda: venha uma vitória, ou principalmente uma derrota, é preciso estar preparado, de cabeça erguida, para o passo seguinte.

Terceira: por mais que haja conflitos internos, o combatente ao seu lado é seu companheiro, seu irmão, seu aliado. Você precisa da ajuda dele, e ele precisa da sua.

Que um dia a direita aprenda isso.

Não era da minha conta

Os ataques à designer que oferecia moradia compartilhada em troca de cuidados ao filho dela partiram dos reaças, ou seja, dos antipetistas. Aposta minha: movidos pelo tom “feminista” do panfleto publicado, e como provocação à incoerência da esquerda, que tanto exige CLT dos patrões, mas rapidamente esquece dela quando do outro lado.

De início, concordei com a turba. Mas logo fui alertado, vejam só, por uma esquerdista. Lembrou-me que, se um lado queria oferecer aquela oportunidade, e o outro tinha pleno interesse nela e nas condições apresentadas, nada daquilo deveria ser da minha conta.

E, creiam, não era.

Das falhas do liberalismo

Eu já fui mais empolgado com o liberalismo. E nem faz tanto tempo. Hoje, ele me soa um bom macete para a prova: colocando-o em prática, você acerta bem mais do que erra. E isso ainda é um elogio, por mais que seus principais devotos não aceitem qualquer gentileza que não o enquadre como perfeição.

Em especial, noto falhas na lógica defendida para a segurança pública. Mais especialmente ainda, na imigração descontrolada. No que explicitamente pedi explicações, ganhei estatísticas. Que até funcionam para justificar uma ou outra medida pública, mas não evitam que o problema siga ganhando corpo e colecionando vítimas que não irão se consolar com números numa planilha.

Também me incomoda a relação de expoentes deste mercado com o que de pior a humanidade produziu. Após séculos, a escravidão voltou à história europeia por obra de mercantilistas. Mas a coisa não parou ali. Partiu da lógica do mercado o emporcalhamento do meio ambiente, além do apoio a genocidas, ditadores e corruptos. 

O papo de que esse não é o verdadeiro capitalismo, é o de compadrio, de Estado, etc, lembra-me o de que o verdadeiro socialismo ainda está por vir. A mim, parece cada vez mais claro que o mercado só é benéfico quando alguém contém seus exageros. E essa contenção parte da sociedade, por intermédio de seus governos, que se veem obrigados a representá-los em algum momento. Quando não há a devida cobrança, agem como comparsas, como predadores. E o Brasil conhece bem essa realidade. É a que vive hoje.

Do pouco que sei, desconheço motor melhor para mudanças benéficas à sociedade. Ainda assim, cabem questionamentos, como os dos parágrafos anteriores. Até que respostas satisfatórias venham, ficará a sensação de que a teoria falha em pontos cruciais. E que o mais prudente é evitar mergulhos de cabeça nela.

O primeiro robô perfeitamente “humano” terá função sexual 

Comentei algo nesse sentido recentemente com amigos: não está longe o dia em que um robô terá feições perfeitamente humanas; e o pioneiro terá uma função sexual.

Uma matéria da BBC, contudo, adiantou que um primeiro passo nesse sentido já foi dado no Japão.

O pior é não conseguir recriminá-los: se é o que faz com que suportem a solidão, e solidão é algo cruel ao ponto de colocar muita vida em risco, eu tenho mais é que ficar na minha.

Política de pontos corridos

Comparações com futebol costumam ajudar. Então, abusemos delas.

Antes, a política era feita num formato Copa: pequenos grupos se uniam, escolhiam seus vencedores, que se enfrentavam em grupos ainda menores, que definiam os vencedores, e assim seguiam compondo a pirâmide, até que o topo do comando tomasse a decisão algumas camadas distante da base.

Mas insistiram que, se você não participasse diretamente da decisão, você seria um analfabeto político. Era preciso voto direto, pressão no gabinete, democracia líquida, politizar tudo e todos.

A combinação de smartphones com redes sociais tornou possível a gigantesca ação. Transformando a competição em pontos corridos: todos enfrentam todos, a disputa é desgastante, alongada ao limite da paciência, só os mais fortes sobrevivem.

Nos 14 anos que antecederam a “era dos pontos corridos”, onze equipes distintas, uma delas nanica, levantaram a taça. Nos 14 anos seguintes, apenas sete, e sete do grupo das 12 maiores.

Os sistemas de pesos e contrapesos democráticos foram pensandos para evitar-se que maiorias esmagassem minorias. Hoje, com nervos à flor da pele após uma competição tão desgastante, é essa a sede das maiorias. E quem irá conté-las?

A luta é contínua

Quando aproximei-me da Reaçonaria, encontrei um grupo de indivíduos de uma pluralidade ainda inédita para mim. Lembro que, nessa época, se eu ainda não me dizia esquerdista, me apresentava como social democrata. Ou, vá lá, esquerda liberal. No que desconfiavam, eu sacava o diagrama de Nolan como prova.

E, já naquele tempo, eu sabia: o que nos mantinha unido era o inimigo em comum. Em maior ou menor grau, em algum momento fomos chutados por ele, o que exigiu de nós algum nível de reação. Nesse sentido, nada melhor do que orbitar a “reaçonaria” com este propósito.

Passado o impeachment de Dilma Rousseff, alguns entenderam que o inimigo comum havia sido derrotado. Outros, como eu, que ele apenas perdera a batalha no campo em que mais se expunha. Desde então, há uma guerra civil em curso, com liberais sentindo nojo de conservadores, conservadores sentindo nojo de liberais, e sociais-democratas pregando nojo a ambos.

Quero crer que 2018 fatalmente voltará com essa turma ao barco, ainda que por um breve segundo turno. O que não torna o processo menos desgastante. Nunca fui tão atacado em minha vida, e o fogo partiu de potenciais aliados.

Estudar o adversário é algo que ajuda bastante. E ele acerta em cheio quando repete que a luta é contínua. É isso o que os mantém unidos, ou o que os força a lavar a roupa suja em casa.

Que um dia o lado de cá aprenda a lição.

A maldição do “É Tois”

A foto abaixo completa três anos hoje. Após sua publicação, o Brasil nunca mais seria o mesmo. Já no dia seguinte, a seleção brasileira de futebol perderia por 7 a 1 para a Alemanha numa semifinal de Copa do Mundo jogada em casa. Mas seria só o início da maldição. Dilma Rousseff seria reeleita. O desemprego atingiria 14 milhões de brasileiros. A saúde continuaria caótica, e os assassinatos chegarima à casa dos 60 mil óbitos anuais. Todas as instituições seriam desmoralizadas e o país entraria numa depressão da qual não sairia até hoje.

Tudo por causa dessa maldita foto.

A força das circunstâncias

Em 6 de março de 2015, comentei no Twitter:

As opções para PT e PMDB são:

  1. Irem se desgastando com a opinião pública para manterem Dilma na presidência;
  2. Ou usarem Dilma como bode expiatório, entregarem a presidência a Temer e sossegarem a opinião pública até as próximas eleições.

Sossegando a opinião pública, reduz-se bastante a pressão por justiça, e aí PT e PMDB terão algum fôlego para se safarem.

Vale pena se sacrificar para manter Dilma, essa política articulada e forte (cof cof) no poder? Talvez valesse por Lula.

Enfim… Minha aposta é que ainda esse ano veremos Dilma renunciando para não sofrer impeachment e perder direitos políticos.

Em 12 de julho daquele ano, já reconhecendo que perderia a aposta, retomei o caso lembrando que Cristóvam Buarque vazara o plano do PT: entregar a cabeça de Dilma.

O áudio de Jucá falando em acordo com Supremo, com tudo, para salvar Lula e todo mundo surge apenas no semestre seguinte, já em 2016.

Certamente, muito cacique participou de reunião nesse intervalo para o alinhamento do posicionamento. Mas o que hoje ocorre em benefício do governo Temer, com tantos poderosos saindo impunes, com o próprio STF colaborando com a impunidade, e diferente do que insinua a esquerda, parece mais consequência das circunstâncias do que de um plano maquiavélico tramado por quem pedia o impeachment da petista.

Ao não comparecer às ruas, o brasileiro dá um recado: prefere a impunidade rolando solta do que correr, por ora, o risco de voltar a ser presidido pelo PT.

E, por tudo o que aconteceu, é difícil tirar-lhe a razão.

Proporcionalmente, Maduro mata 8 vezes mais do que a ditadura brasileira

Uma conta rápida para se entender a gravidade da coisa. A Venezuela vive uma onda de protestos iniciada em 1º de abril de 2017. Nos 95 dias que se passaram desde então, um total de 91 venezuelanos foram mortos.

Se considerarmos que os “anos de chumbo” brasileiros ocorreram durante a vigência do AI-5, trata-se de um período de 3.652 dias. No ritmo atual, o governo Maduro somaria 3.498 vítimas num recorte de igual duração. Mas a Comissão da Verdade reconheceu 434 mortos e desaparecidos enquanto o Brasil esteve sob uma ditadura militar.

Em outras palavras, a ditadura venezuelana avança sobre a própria população com uma letalidade oito vezes maior do que a observada por aqui.

Isso não alivia em nada período tão lamentável da história nacional. Mas desenha melhor a gravidade do que vive o vizinho mais ao norte.

A fera

Finalmente cedi à pressão e comecei Sons of Anarchy. Já ali nos primeiros minutos, ela verbalizou o que eu havia pensando:

— É impressionante como ele é feio.

— Eu tenho a sensação de que o conheço de algum lugar.

Na madrugada, uma imagem compartilhada nas redes sociais acendeu o alerta.

Seria isso? Ron Perlman lembrava muito a Fera, da Bela e a Fera, série de 1987 com Linda Hamilton.

Nessas horas, só o IMDB salva. E…

Há 30 anos. Direto do túnel do tempo.

Roadies – Única Temporada

Vejamos se me empolgo com a brincadeira. Eu não gosto das opiniões da crítica. No geral, me soam membros de uma bolha disputando atenção interna. Interessa-me mais as dos consumidores. E, nesse quesito, desconheço ferramenta mais autêntica que o IMDB, ainda que seja geek além da conta.

No caso de série, mais do que a nota dado ao produto, interessa-me a dada ao episódio. Assim, vislumbro uma forma de entender como cada temporada se comporta jogando tais avaliações num gráfico.

Regras explicadas, seguem as notas da única temporada de Roadies. Em vermelho, minhas contribuições.

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Imagina no segundo turno

Eu acho, inclusive, que o formato ideal de votação seria esse: confronto direto entre todas as opções possíveis, com o eleitor escolhendo sua preferência em cada par. Praticamente um Brasileirão por pontos corridos. Obviamente, seria inviável numa eleição com tantos candidatos, a não ser que o modelo americano de votação em múltiplos dias fosse adotado.

Mas a brincadeira do imaginanosegundoturno.com serve ao menos como métrica da popularidade de cada personagem.

Até o momento da redação deste texto, dentre as opções que se assanham por 2018, os mais fortes seriam:

  1. João Doria (74%)
  2. Joaquim Barbosa (72%)
  3. Geraldo Alckmin (63%)
  4. Marina Silva (57%)
  5. Fernando Haddad (57%)
  6. Marcelo Freixo (51%)
  7. Ciro Gomes (48%)
  8. Jair Bolsonaro (42%)
  9. Luciana Genro (36%)
  10. Aécio Neves (36%)
  11. Lula (25%)

A derrota de Lula até mesmo para nomes da esquerda mostra que a brincadeira, claro, ainda não chegou ao “povão”, se é que algum dia chegará. Mas dá uma ideia de como a ala mais influenciadora da web pode se comportar no ano que vem. E ela será mais importante do que nunca.

Também é importante observar como a ala alckmista do PSDB foi menos afetada pela Lava Jato.

EM PARTE, os “intervencionistas” tinham razão, mas…

A pauta absurda se sustentava em premissas verdadeiras: o problema não era Dilma, era o sistema; trocá-lá não resolveria o problema, afinal, toda a linha sucessória e suas fatais alternativas eram um lixo; o texto constitucional é propositalmente subjetivo, ou não seria aprovado em 1988, ou seja, permite todo tipo de interpretação, até mesmo as mais amalucadas.

Dilma caiu. Cunha caiu. Toffoli e Lewandowski deram espaço a Mendes e Lúcia. E o sistema apenas partiu com mais sede para cima da impunidade. Em outras palavras, os “intervencionistas” tinham alguma razão. Ao menos nas premissas. Mas…

Mas eles sumiram das ruas após a consumação do impeachment. Fortalecendo as suspeitas de que seus adeptos, ou seus líderes, financiados sabe-se lá por quem, moviam-se apenas com o interesse de tumultuar o processo em curso.

Tumultuaram. Mas não impediram o impedimento.

Calmaria deltaniana

Assumi que o caminho é acompanhar a reação de Deltan Dallagnol. Quando ele aponta risco à saúde da Lava Jato, corro à farmácia para comprar remédio. Ele continua reclamando, mas já foi bem menos contido.

A reversão da prisão de Vaccari soou um sinal de que enterravam a operação. Ou, ao menos, de que preparavam o terreno para absolverem Lula na segunda instância.

Moro sempre deixou claro: sem o medo da punição, não há delação, a investigação não avança, não tem cadeia, não tem Justiça. Por tudo o que STF aprontou recentemente, acabou o medo, acabou a Justiça.

Mas Deltan não está tão histérico. Sigamos com fé.

Como o impeachment de Dilma impediu o de Temer

O “povo” é uma abstração bem mais complexa do que imaginamos. Para um grupo representá-lo, precisa de indivíduos de cada segmento da sociedade. Dito isto, resta-me a sensação de que nenhum ato político no Brasil jamais foi protagonizado pelo povo.

Planilhados os números, os atos de 1992 são nanicos. Têm entre 5 e 10 mil participantes. No melhor momento, cinquenta mil em contagem pouco confiável. Era só PT, CUT e UNE. Mas a imprensa noticiava como povo.

Contra Dilma, a mesma imprensa negava manchetes a atos de mesma proporção. A solução foi elevá-los em algumas potências. Qualquer coisa com menos de 50 mil era fracasso. Mas chegou a 1,5 milhão em uma única cidade.

Ainda não era povo, mas era a classe média. Se não era tão digno quanto, certamente era mais do que militantes do PT, CUT e UNE. O mais importante, contudo, reside no aumento do ponto de corte.

Contra Temer, a imprensa até tentou. Mas, de novo, só conseguiu levar CUT, UNE e PT às ruas. Se ainda fosse 1992, poderia ter chamado de povo. Contudo, os coxinhas não deixariam isso se repetir impunemente em 2017.

Ensina a história, sem povo — ou “povo” — nas ruas, não se derruba presidente. Eu só não sei até que ponto isso é bom.

O sistema é mau, mas minha turma é legal

Porque o calor não me deixava dormir, eu só pegava no sono com um ventilador ligado. Porque desde sempre sou uma vítima da rinite alérgica, o ventilador me fazia amanhecer com as vias aéreas em frangalhos. Mas dessa obviedade eu só me toquei aos 29 anos, quando me mudei para a frieza de São Paulo. Até então, passei toda uma vida escolar me escondendo da atenção alheia, afinal, não queria que os colegas de estudo me flagrassem manipulando muco na cadeira ao lado. Assim, mesmo na condição de bom aluno, escondia-me lá no fundo, onde teria a companhia exclusiva de outros introvertidos. Ou, como são mais conhecidos, “a turma do fundão”.

Era uma fauna diversificada. Tinha do playboy que acordava tarde com ressaca ao garoto da periferia que também chegava atrasado, mas por perder o ônibus. Um queria ser músico, outro queria ser jogador de futebol, mas a maioria ainda não sabia o que queria. Nem o CDF com facilidade acima da média para o aprendizado, muito menos o aluno repetente, que se comportava como uma hiena, rindo e fazendo graça de tudo.

Mas havia algumas características em comum. Em especial, a descrença no sistema, ou a sensação de que a maior parte do tempo dedicado a ele de nada seria útil em suas vidas – no que tinham plena razão.

De minha parte, apeguei-me a eles por um motivo simples: foi o primeiro – e talvez único – grupo de amigos que me aceitou sem ressalvas. Se eu contava da minha banda de rock, não reclamavam que eu não tocava pagode. Se eu falava da intenção de cursar jornalismo, não perguntavam o motivo de eu não fazer direito. Se eu me sentia um estranho no ninho, eles também se sentiam. E não me olhavam atravessado quando o meu nariz começava a escorrer.

Passei os anos seguintes tentando abandonar “a turma do fundão”. Para tanto, me aventurei entre intelectuais, boêmios, militantes, artistas, nerds… Mas sem jamais encontrar um ninho no qual me sentisse confortável. Talvez o problema fosse eu. E minha incapacidade de ceder às vontades da tribo. Acontece.

Após alguns anos atribulados, vejo-me novamente escapando da atenção alheia. Se não sou mais do fundo da turma, sou do fundo da casa. Durmo e acordo cedo, contemplo o silêncio, admiro a solidão. Passo horas lavando louça enquanto entrego os ouvidos a sons tranquilos.

Se hoje posso contar com alguém, conto com amigos de descrições pitorescas. São melancólicos, irônicos, depressivos, ansiosos, solitários, sarcásticos. Pessoas que nunca baixaram a cabeça para o sistema, ainda que isso lhes trouxesse algum prejuízo. Pessoas desconfiadas. Mas bem humoradas, divertidas.

Décadas se passaram, e só então percebo: é a turma do fundão rumando aos quarenta anos.

Não é uma história feliz, mas está longe de ser triste. Todavia, é a história de encontro e aceitação de uma turma. A minha.

Pai, afasta de mim essa foi-se, pai

Cada vez mais esquerdista — o proselitismos já invadiu até mesmo a pauta do Globo Rural —, a Globo até arranhou, mas não conseguiu — com apoio do presunto Seara — derrubar Michel Temer.

Não é algo que se comemore. Temer fez por onde cair. Mas segue de pé. O que torna obrigatório observar: foi-se o tempo que a Globo escolhia quem comandava o país.

Com trocadilho, que isso fique claro para a turma da foice, aquela que acha que atua em benefício do trabalhador rural, mas só está ali por causa do Agro.

Precisaria de cobertura

A falência institucional cada vez mais evidente tem ampliado a quantidade de amigos que temem — ou até anseiam por — um novo golpe militar. Sabem que o grosso da população não sofreu a perseguição enfrentada por formadores de opinião e certamente veria com menos asco a medida. Até porque alguns ainda trazem a lembrança de um tempo em que segurança, saúde e educação não eram tão caóticos.

Mas, por tudo o que sei, essa é uma chance remota. Nenhuma instituição toma medida tão drástica contra o poder sem a devida cobertura de outras instituições. Como, no Brasil, ninguém arriscaria apoio a algo tão tóxico à própria imagem, o apoio mais uma vez precisaria vir de fora. E, lá fora, só um maluco como Vladimir Putin ainda se dispõe a medidas do tipo. Todavia, sob a condição de a bandeira dar uma leve avermelhada — o que está longe de ser o que anseiam os “intervencionistas”.

Às vezes um rasante é só um rasante

Muito se especulou que o estilhaçar de vidraças por um caça da FAB teria sido um alerta das Forças Armadas ao STF a respeito do Mensalão: ou trabalhavam sério, ou sofreriam consequências.

Eu, que adoro uma teoria conspiratória, nunca desperdicei chance de fazer referência a essa. Mas, por tudo o que o STF fez nas últimas semanas, e pelo silêncio das mesmas Forças Armadas a respeito, resta evidente que aquele rasante foi só um rasante.

O globalismo de fato é um engodo

Em suas maiores crises econômica e política, com 14 milhões de desempregados, 60 mil assassinatos, estrutura precária e saúde ainda caótica, o Brasil se vê forçado a aceitar pautas da ONU, que quer a qualquer custo empurrar temas globais, com destaque para a crise dos refugiados, atropelando necessidades locais.

Não à toa, figuras polêmicas como Trump chegam ao poder.

Cru?!

Eu não prestava atenção no filme — ou série — que passava na TV. Ela, espantada com o que via,  verbalizou a situação:

— Ele vai colocar os filhos para comerem a perna da mãe!

Minha reação também foi a de quem se espantava com a cena.

— Cru?!

Após alguns segundos, rimos. De nervoso.

Eu apoio voto em lista

Por um motivo que soa simples, mas é um tanto mais complexo: o voto já é em lista. Ao se compreender a dinâmica do quociente eleitoral, percebe-se que as cadeiras das câmaras municipais, assembleias legislativas e Câmara Federal são distribuídas para listas de candidatos, respeitada a ordem do mais para menos votado. A diferença é que, no modelo atual, a lista é formada pelo próprio eleitor no momento em que vota. Já no modelo desejado por Brasília, ela seria definida por cada partido, e o eleitor deixaria de votar em um candidato, mas na ordem definida pela agremiação.

Então o modelo atual seria melhor, certo?

É aqui que eu discordo. Hoje, o eleitor define a lista, mas ele vota às cegas. Ele não sabe quem será o primeiro, o segundo ou terceiro nome dela. Sabe apenas que há um punhado de nomes, que tantas vezes, via coligação, dizem respeito a mais de um partido. E, assim, vota em Tiririca sem perceber que também elege Protógenes Queiroz.

No modelo em discussão, o eleitor teria contato com toda a escalação do time e saberia melhor em quem está votando.

Em Brasília, apostam que assim facilitarão a renovação dos próprios mandatos, o que os protegeria do avanço da Lava Jato na primeira instância. Eu faço uma aposta distinta: hoje, nada fala mais alto numa eleição do que a rejeição. Uma maçã podre causará um impacto enorme no cesto, e forçará o eleitor a buscar outra sigla. Ou essa sigla a se livrar da maçã podre.

Há ainda o fator didático: aqueles parlamentares trabalharão em equipe, porque é assim que a coisa funciona no Congresso. Quero crer que dará mais resultado o eleitor pensar no grupo, e não no indivíduo. E entenderá que este jogo precisa de entrosamento, não de malucos que gritam absurdos sozinhos e nada conseguem de prático além da renovação do próprio mandato.

É uma aposta cara num momento delicado. Mas o modelo atual vem rendendo essas legislaturas porcas. Eu, que tenho pouco a perder, topo arriscar.

Mas segue o spoiler: não vai acontecer.

Orçamento familiar importa!

Há alguns anos, uma campanha publicitária foi duramente criticada por oferecer a mulheres uma promoção de sapatos durante uma partida de futebol. A militância revoltou-se pois não queria atrelada a essas uma futilidade como o desejo por calçados novos. Em resposta, reclamava um interesse igual pelo esporte. Ignorava, claro, que o futebol é uma futilidade ainda maior, pois nem para proteger os pés serve.

Este é um exemplo do que chamo de machismo do feminismo, que é o ato de tomar por inferiores os papéis que historicamente pertenceram a mulheres – ou ainda pertencem, mesmo que não precisem de exclusividade – e, em vez de enaltecê-los, renegá-los a qualquer custo.

Só hoje fiquei sabendo que Michel Temer disse ontem que “ninguém mais é capaz de indicar os desajustes de preços no supermercado do que a mulher“. Foi a forma que o presidente da República encontrou para dizer que nenhum brasileiro percebe melhor as crises econômicas do que as mulheres, uma vez que são elas quem majoritariamente cuidam dos orçamentos familiares.

Há várias explicações. Mas pesco duas, que nascem justamente de situações que as beneficiam: na imensa maioria dos divórcios, a mulher ganha a guarda dos filhos e passa a cuidar sozinha da gestão da casa em que vivem; e homens vivem em média uma década a menos, deixando às viúvas o controle exclusivo de tudo o que a família produziu até ali.

Nos Estados Unidos, isso já rende um efeito político de proporções federais: algumas das principais fortunas do país estão sob os cuidados de matriarcas, que escolhem a dedo os políticos que financiarão nas disputas eleitorais. Não à toa, questões de interesses das mulheres ganham cada vez mais espaço nas campanhas, mesmo as presidenciais.

Mas não precisa ser algo tão amplo. Se você encara o mundo como um organismo social, as nações são os seus órgãos, e as famílias, suas células. Esse reconhecimento não é meramente metafórico, é jurídico, ainda que caiba discussões ou mesmo ajustes no que se entenda por família. Mas fato é que o orçamento familiar é o primeiro orçamento da sociedade. É o prioritário na vida de qualquer cidadão. Por uma jogo de empurra da lógica de mercado, é dele que saem todos os impostos que mantêm um país de pé.

Ter o controle do orçamento familiar não é nenhum demérito, muito pelo contrário. Eu, que não sou pai, estou há meses sem conseguir sair do cheque especial. E vivo a invejar a minha mãe, que educou cinco filhos e ainda guardou reservas para garantir-nos alguns bens apenas com a pensão que recebia desde que o marido morreu.

Minha mãe é uma heroína. Eu aplaudo de pé o que ela conseguiu fazer. Principalmente porque estou há uma década falhando miseravelmente no controle financeiro do meu lar. Entretanto, sei que ela não é a única. Ela faz parte de toda uma massa que não se enxerga na implicância da militância que se ofendeu com as palavras de Temer.

Por mim, Temer se explodia e os estilhaços levariam juntos 98% do Congresso Nacional. Mas o orçamento familiar precisa ser respeitado, principalmente dos arroubos de uma militância histérica que já deixou a razão de lado há tempos.

Enfim… Orçamento familiar importa. E a chance de sua mãe entender disso melhor do que você é enorme.

Herman Benjamin não perguntou?!

Eu lembro de ficar incomodado na campanha com a atuação de Herman Benjamin. O martelo dele até decidia contra a campanha de Dilma, mas parecia muito mais empenhado em podar as de Marina e Aécio — principalmente deste último.

Contudo, quando recentemente iniciou a apuração que pode render a cassação da chapa que reelegeu a petista, fiquei na dúvida: ele queria, por Dilma, vingar-se de Temer, ou apenas fazia o trabalho dele? E tendi à segunda opção, afinal, cassar a chapa era também cassar, desconfiava eu, a protegida do membro do TSE.

Agora, leio na Folha que Benjamin “dá sinais” de que concordará com a tese de que Dilma não merece ficar inelegível pois, apesar de todos os depoimentos dados, ela não teria ciência de nada.

Talvez tenha faltado a Benjamin fazer a Marcelo Odebrecht a pergunta curta e incômoda: ela sabia? Se tivesse feito, ouviria do empreiteiro o que já foi capa da IstoÉ: sim, não só sabia, como deu aval. Chegou a confirmar pessoalmente ao delator que uma nova carga de R$ 12 milhões precisaria irrigar o caixa dois. E que metade daquele volume iria para o PMDB. Tudo isso referendando o que já havia pedido o tesoureiro de campanha. Ou seja… Ela estava ciente dos movimentos deste.

Com isso, voltei a ter motivos para desconfiar da postura do ministro nomeado por Lula ao STJ em 2006, quando o ex-presidente, instruído por Marcio Thomaz Bastos, já escolhia para a Justiça currículos que pudessem ser úteis no julgamento do Mensalão.

“Pronto: sabotei o PT. Agora só falta o PSDB sabotar o PSDB.”

Encontrei as palavras do título na linha final de uma ótima coluna de Diogo Mainardi republicada pelo blog de Reinaldo Azevedo em 31 de outubro de 2009. O ainda colunista da Veja alegava ter ouvido dos marketeiros de Serra e Aécio que somente uma chapa presidencial com ambos seria capaz de “sabotar” os planos do PT, que já trabalhava o nome de Dilma para a sucessão de Lula.

O cálculo envolvia uma vitória dupla: São Paulo e Minas Gerais. E isso só seria possível com os principais nomes de cada Estado concorrendo em parceria. Do contrário, o PT venceria em Minas.

Eu não sou marketeiro, mas sei que o PSDB só logrará o êxito que almeja se unir seus dois maiores trunfos em 2018. Para isso, a estratégia parece-me simples: José Serra mantém o governo de São Paulo com o próprio partido (a vitória mais previsível de todas); Aécio Neves renova o mandato para o Senado já mirando a presidência da casa, e isso tem que acontecer com a reconquista de Minas (talvez Anastasia seja outra aposta de baixo risco); se for esperto, emplaca um “outsider” amigo no governo do Rio de Janeiro, estado onde morou nos últimos anos, hoje uma terra arrasada com tantos ex-governadores enfrentando graves problemas com a Justiça.

Tudo isso para que Geraldo Alckmin seja o próximo presidente da República. É o nome que “venceu” a eleição de 2016, é o dono de uma estratégia que funcionou e está funcionando em São Paulo, e está com uma sede enorme de fazer isso no resto do país.

Não é nada de outro mundo. É o que qualquer partido sério faria: avaliaria seus melhores quadros e reservaria aos maiores as maiores conquistas.

Mas o PSDB sempre sabota o PSDB. E diariamente surgem notinhas defendendo uma candidatura presidencial de João Doria, alguém com dois meses de trabalho como prefeito.

Essas notas não querem Doria na Presidência. Querem um conflito entre ele e seu padrinho, Alckmin. Creem que, implodindo a relação, implodem ambos, e abrem caminho para Serra ou Aécio, ou Serra e Aécio, uma dupla cuja rejeição Lula adoraria ver somada.

Naquele 31 de outubro de 2009, Mainardi terminou a coluna dizendo: “Agora só falta o PSDB sabotar o PSDB“. No dia seguinte, primeiro de novembro de 2009, às 12h09, Juca Kfouri noticiou que Aécio Neves bateu na “acompanhante” numa festa no Rio de Janeiro.

Eu sou o tipo de pessoa que tem muita dificuldade para acreditar em coincidências. Mas, coincidência ou não, no ano seguinte, o vice de José Serra foi Índio da Costa. E Aécio teve que dar muita explicação sobre o episódio do Fasano em 2014.

Limites

Naquela época, minha carência não me deixava fazer nada sem que eu tentasse concluir a missão da forma mais inusitada possível. Explorar a criatividade era a arma sacada por mim para conquistar a atenção alheia. E eu precisava muito desta, pois não me suportava só com meus pensamentos.

Há uns 15 anos, Vicente Serejo foi a vítima da vez. Acostumado a nos solicitar redações de temas específicos, mas com tamanho livre, limitou-nos a apenas 20 linhas. Eu nem achava um absurdo, mas meu ego não se conteve. E aquela lauda nasceria em forma de protesto contra as instruções recebidas.

Era uma bobagem, mas eu me achei genial ao colocá-la em prática. Como numa contagem regressiva, cada linha citava organicamente um número. Nem lembro do tema, mas, ao final, a leitura se sufocava na falta de espaço. E minha criatividade concluía reclamando a liberdade que lhe fora tolhida.

Sim, amigos, é duro reconhecer, naquele inverno o termo nem era usado com este sentido, mas eu “lacrei”.

Serejo, que findaria o curso como o melhor e mais educado professor que topara o desafio de me ensinar, faria uso de um sangue frio que ainda invejo. E lembraria a toda a turma que os limites fazem parte da vida, principalmente das carreiras profissionais. Que era preciso jogar o jogo – e aqui já uso minhas próprias palavras – com as ferramentas existentes. E, por vezes, elas seriam pouco úteis, pequenas, minguadas, nada mais do que 20 linhas.

Enfim… O segredo era tirar o máximo do mínimo.

A mim, coube apenas o sorriso amarelo diante da lição. Que me volta à mente sempre que vejo amigos (ou inimigos) indo além dos limites aceitáveis para defenderem seus pontos.

Um bom guerreiro reconhece a força do adversário. E não avança de peito aberto diante da linha inimiga. Ele rasteja, contorna, aguarda em silêncio, calcula, e só ataca quando sente segurança para tal.

São metáforas, claro. Mas que servem a essa “guerra cultural” que enfrentamos. Poucas coisas conseguem ser mais valiosas à humanidade do que o reconhecimento dos próprios limites. E a descoberta destes exige uma boa dose de paciência.