O militante não quer o fim do preconceito

A já “clássica” entrevista de Jordan Peterson a Cathy Newman desenha um fenômeno não só notado por mim, mas sofrido na pele. As pessoas até sentem uma genuína vontade de lutar contra preconceitos, mas não toleram a ideia de que o preconceito não exista, ou mesmo deixe de existir algum dia.

O “preconceito” como diagnóstico é muito tentador. Porque é simples, direto, claro, acessível a qualquer um, e paga-se bem por ele. Havendo a capacidade de perceber divisões assimétricas, algo extremamente comum na natureza, basta apontar o dedo ao “preconceito” para ser indicado a prêmios, receber convites para entrevistas em programas matinais, ganhar coluna no maior jornal, etc.

Como tanto repete Peterson, certamente há preconceito. Mas geralmente se trata de apenas um de vários fatores que explicam o fenômeno. É comum que seja fator minoritário. E perceber isso não faz de ninguém preconceituoso.

Acrescento que o mero ataque ao preconceito raramente acabará com ele. Que o preconceito costuma ser mais consequência do que causa. E o ataque à causa há de surtir resultado muito mais efetivo.

Mas acabar com o preconceito é acabar com a razão de existir daqueles que se dedicam a combatê-lo. Assim como negar a importância dada a ele. Logo, e quase por instinto, estes grupos de pressão reagem com truculência. E passam a assassinar a reputação de qualquer um que ouse reverberar ideais tão perigosos.

Claro, não tem que ser assim. Há os que querem resolver o problema, e os que querem tirar proveito dele. E eu jamais abrirei mão de me alinhar com o primeiro grupo.

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Como “lideranças” transformam “militantes” em dinheiro

Não havia uma tabela. O valor era apenas comentado nos bastidores e em blogs políticos. Dizia-se que os marqueteiro calculavam em 50 reais o custo do voto.

Isso traduzia-se da seguinte forma: se um cargo exigia ao menos 100 mil votos para uma eleição tranquila, era bom o candidato estar preparado para gasta algo em torno dos R$ 5 milhões. O valor, em tese, serviria para trabalhar o nome do candidato junto ao eleitorado.

Mas havia uma relação mais questionável com as lideranças.

Liderança é o militante que fala em nome de um grupo. É ele quem negocia o apoio ao candidato. Por vezes, num papo cara a cara. Um papo simples: o candidato pergunta quantos votos a liderança garantirá naquela região, a liderança responde, o candidato multiplica a promessa pelo valor calculado pelo marqueteiro e repassa à liderança a verba para — de novo, em tese — gastá-la com palanques, panfletos, “baratinhas”, bandeiras, etc.

Feito o acordo, a liderança voltava a se reunir com os militantes com a ordem: nosso candidato é Fulano de Tal, votem nele, peçam voto a ele.

Eu, claro, nunca acreditei que a liderança utilizaria aquela verba para o devido fim. Tinha a certeza de que colocaria o dinheiro no bolso e apenas contaria com a cegueira dos seguidores. E uma delas me confessou que de fato eu tinha alguma razão.

Terminada a eleição, me contou que estava aliviado. Vinha com medo de a região não render a quantidade de votos que prometera ao candidato. Se não desse, ficaria com o filme queimado e teria as portas do gabinete fechadas. E, por receio, usou a véspera da votação para distribuir dinheiro vivo em praça pública.

Deu certo. Porque o Brasil é um país que adora premiar quem faz errado.

Não se menospreza a caixa de comentários

O padrão da sociedade é responsabilizar o leitor por erros de interpretação. Caso não compreenda o que foi dito, erra a questão, é reprovado, perde a vaga no concurso, perde o emprego.

Exceto no caso do comunicador. Porque o trabalho deste é fazer uma mensagem ser compreendida. Se o leitor não a interpreta corretamente, o problema está na mensagem, com a culpa recaindo em quem a formulou.

Mas desconheço jornalista brasileiro que não despreze a caixa de comentários. Ela é vista como um sistema que nem merece qualquer atenção, uma vez que seria tomada por uma massa incapaz de compreender a genialidade do redator.

O ouro, contudo, está nela. Mesmo dos comentários mais ruidosos é possível garimpar os obstáculos que fazem o discurso não surtir efeito. Cabendo ao comunicador trabalhar melhorias no raciocínio de forma a se fazer mais claro.

Por que temem as “fake news”, mas não temiam as “notícias falsas”?

O TSE não se cansa de repetir que tem por principal objetivo evitar a disseminação das “fake news” na eleição de 2018. Vem falando isso desde 2017. O que é curioso.

Porque o Brasil nunca viu uma campanha tão suja quanto a de 2014. Havia até mesmo um comportamento padrão: os candidatos abordavam um tema polidamente na TV, militantes virtuais pegavam o gancho e faziam dele um inferno nas redes sociais, sempre regado a muita mentira, distorção e desinformação.

No entanto, o TSE esqueceu de preocupar-se com isso no pleito de outubro de 2016. Encarando o temor só no ano seguinte, que nem eleitoral foi.

A resposta óbvia: o “problema” ocorreu em novembro de 2016. E nem tem a ver com notícia falsa, mas uma verdadeira, a eleição de Trump.

Quando a esquerda venceu, as mentiras foram ignoradas. Quando a direita venceu, ainda que lá do outro lado do continente, mentir virou um problema.

Aos inimigos, a lei.

Seja o guia

Não escondi minha revolta quando as “TV’s” UOL e Folha apareceram no final de 2014 com reportagens abjetas ridicularizando os brasileiros que já iam às ruas exigir o impeachment de Dilma. Eu tinha certeza que faziam uso apenas do pior material colhido justo para arrefecer a vontade de dar fim à gestão petista. Foi quando um amigo jornalista insistiu que não, que as equipes tinham usado o que colheram, e a totalidade que estava ali era de fato estúpida.

Daquele ponto em diante, eu poderia seguir por três caminhos: o de tomar o tal amigo por mentiroso e seguir xingando UOL e Folha; o de aceitar como verdade e passar a gongar aqueles que queriam exatamente o que eu queria; ou de pesquisar o máximo que podia a respeito do processo e compartilhar com eles por todos os meios possíveis.

Sábia e modestamente escolhi a terceira opção. E o constante exercício de perguntar e dar publicidade às respostas obtidas abriu o caminho para que eu pudesse participar de projetos como o Antagonista e Implicante. Somados, passavam dos 5 milhões de leitores únicos, com alcance dez vezes superior em redes sociais.

Meses depois, era com certo orgulho que víamos muito do resultado daquelas pesquisas aparecer nas manifestações. Claro, nem todo mundo tinha pleno domínio de algo tão complexo, nem nós tínhamos. Mas o resultado foi tão positivo que, bem, Dilma findou caindo — e lógico que sei que não foi só por isso, mas quero crer que sem o referido trabalho o percurso teria sido ainda mais complicado.

Vejo amigos desancando a direita por hoje ela ainda ser tão despreparada. As críticas partem da ideia de que o conservadorismo já foi algo muito estruturado, e hoje seria chucro.

Sim, o conservadorismo já viveu dias bem melhores. Mas é importante lembrar que ele é um movimento de reação, reacionário. Ou seja… Veio depois. É mais jovem. Sempre foi. Ele só entra em campo quando o time está perdendo. Pra bloquear o avanço do adversário. Pra revisar o que está sendo feito e podar os devidos excessos.

Claro, o ideal seria sempre estar ativo. Mas ele adormeceu com o fim da Guerra Fria. Deu a missão por cumprida. Acreditou que deixar o mundo aos cuidados da “terceira via” séria razoavelmente seguro.

Duas décadas depois, veio a certeza de que foi um erro. Que essa parceria entre social-democracia e liberalismo foi leniente, deixou o autoritarismo dar as caras, destruir muito do que estava feito, ampliar os risco a patamares que imaginávamos superados.

E resolveu que era hora de renascer das cinzas. Com uma nova geração que nunca tinha feito política. Que estrutura nenhuma possui. Uma massa chucra.

Lógico que eu preferia ter ao meu lado uma time de Churchill’s e Thatcher’s. Mas a vida me jogou ao lado de web celebridades e comunicadores histéricos. Contudo, o mais caro eles me dão: vontade política, uma raridade que não encontro em lugar nenhum no mundo, pois este mundo ainda me tem por inimigo.

E confesso que me empolga a ideia de retomar o trabalho do zero, de lapidar toda uma massa bruta e fazer o trabalho que tem que ser feito.

E o que fazer? Gongar o colega que está causando-lhe vergonha? Não. É o mesmo dilema do novembro de 2014: pesquisar e compartilhar.

Se você sabe de algo, compartilhe. Se não sabe, pergunte e compartilhe a resposta. Se notou o amigo errando, abra mão de esculhambá-lo e abra um flanco para o diálogo. Nós ainda somos poucos e pobres demais para estarmos nos dando ao luxo de abdicarmos de aliados.

Só iremos longe se formos na primeira pessoa do plural. Do contrário, ficaremos na primeira pessoa do singular nos vangloriando de nossa fidalguia.

Não é fácil, eu mesmo engulo muito sapo. Mas, quando o sangue esfria, fico feliz em saber que driblei uma briga em prol de algo mais produtivo. E indico a postura a qualquer um.